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Desconfiança afeta parceria EUA-China em energia

13/11/2009

A empresa chinesa Shenyang Power juntou-se a um grupo de investidores americanos e anunciou há duas semanas que vai investir US$ 1,5 bilhão na construção de um parque de energia eólica no Texas, no sul dos Estados Unidos. O projeto prevê a instalação de 240 turbinas com capacidade para garantir o fornecimento de eletricidade para 150 mil famílias.

 

O plano é fabricar as turbinas na China, onde os custos de produção são bem menores. O empreendimento promete gerar dois mil empregos no país. Os investidores que se associaram aos chineses anunciaram também que vão pedir ajuda ao governo americano, que neste ano separou bilhões de dólares para financiar o desenvolvimento de fontes de energia mais limpas.

 

A reação foi imediata. Ativistas organizaram um abaixo-assinado contra o projeto na internet. Um senador de Nova York, Charles Schumer, pediu ao secretário de Energia, Steven Chu, que rejeite qualquer pedido relacionado ao empreendimento. "Sou totalmente a favor de investir em energia limpa, mas deveríamos investir nos EUA, não na China", escreveu o senador numa carta para Chu.

 

Pode ser que a salvação do planeta não dependa do que acontecer com as turbinas chinesas no Texas, mas a oposição que elas despertaram é um mau sinal. Ela oferece uma amostra dos obstáculos que EUA e China têm encontrado para coordenar os esforços que estão fazendo para desenvolver fontes de energia menos poluentes e combater o aquecimento global.

 

Os dois países começaram a desenvolver neste ano diversos mecanismos de cooperação nessa área. Cientistas dos dois lados se reúnem com frequência para trocar informações e empresas têm participado ativamente das discussões. O assunto está no topo da agenda do presidente dos EUA, Barack Obama, que chega domingo à China para uma visita de quatro dias.

 

Um memorando assinado pelos dois países em julho definiu dez áreas em que poderiam trabalhar juntos. Funcionários dos dois governos discutiram nos últimos meses a possibilidade de assinar na visita de Obama um acordo para tirar as intenções do papel, mas não conseguiram um entendimento.

 

Os EUA e a China são atualmente os maiores emissores dos gases que provocam o efeito estufa. Eles respondem por 40% das emissões globais e dependem muito de fontes de energia poluentes. Metade da eletricidade consumida nos EUA é gerada em usinas termelétricas a carvão. Na China, 80% da eletricidade é gerada com carvão.

 

Os dois países têm demonstrado interesse em parcerias, mas a desconfiança mútua atrapalha. Parte do problema é a competição entre empresas chinesas e americanas que esperam lucrar com os investimentos que estão sendo feitos no mundo inteiro para explorar fontes de energia renovável.

 

"Os chineses têm condições de fazer mais rápido e mais barato qualquer coisa se decidirem apostar numa tecnologia", diz Andrew Light, pesquisador do Centro para o Progresso Americano, um influente grupo de estudos. "Os EUA têm potencial para inovar, mas estão perdendo terreno para a China porque não conseguem competir com sua capacidade industrial."

 

E não só nas turbinas como as que a Shenyang quer instalar no Texas. A China virou líder mundial na produção de painéis de energia solar. Quase metade dos painéis instalados nos EUA em 2007 foi importada, segundo o Departamento de Energia. De cada dez, um foi fabricado pelos chineses.

 

No início do mês, a China Investment Corporation (CIC), um poderoso fundo de investimentos controlado pelo governo chinês, divulgou a intenção de adquirir 15% das ações da AES, uma das maiores companhias americanas de energia elétrica. A operação injetará US$ 2,2 bilhões nos cofres da AES e permitirá que a China participe dos projetos de energia eólica que a empresa está desenvolvendo.

 

Embora tenha se tornado um grande poluidor, a China resiste a aceitar metas para controlar suas emissões, por achar que países ricos como os EUA deveriam contribuir mais para lidar com o problema. Autoridades chinesas têm manifestado dúvidas sobre a capacidade dos EUA de reduzir suas emissões, por causa da oposição que as propostas de Obama enfrentam no Congresso americano.

 

Outro motivo de insatisfação para os chineses é a falta de compromisso dos países ricos com mecanismos de transferência de tecnologia e de financiamento para ajudar os países em desenvolvimento a combater o problema, uma das questões principais na agenda da conferência sobre mudanças climáticas que a Organização das Nações Unidas (ONU) vai realizar no próximo mês em Copenhague, na Dinamarca.

 

Embora tenha assumido posições de liderança em algumas áreas, a China enfrenta dificuldades em outras. O país está investindo em várias tecnologias que permitem capturar o gás carbônico emitido por indústrias e usinas e evitar que ele chegue à atmosfera, mas especialistas dizem que nesse segmento os americanos e os europeus estão bem mais adiantados.

 

"Os chineses têm interesse em cooperação com outros países nessa área porque os custos dos investimentos necessários para tornar viáveis essas tecnologias são muito altos", diz Will Pearson, analista da consultoria Eurasia Group. Os EUA reservaram neste ano US$ 3,5 bilhões para investir em projetos de captura de carbono.

 

Um estudo publicado neste mês pelo Centro para o Progresso Americano e pela Asia Society estima que o desenvolvimento dos projetos em andamento nos EUA poderia ser acelerado em pelo menos cinco anos se os americanos se associassem a parceiros chineses. Mas muitas empresas têm medo de transferir tecnologia para a China, por achar frágil demais a proteção que o país dá à propriedade intelectual.


Valor Econômico
São Paulo/SP
Internacional
13/11/2009

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