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Negociação climática da ONU é lenta e pouco ambiciosa, diz Lester Brown

27/10/2009

O americano Lester Brown, referência do pensamento ambiental no mundo, não espera muito do acordo climático que a ONU está tentando costurar para ser assinado em Copenhague, em dezembro. "Acordos assim, por natureza, costumam limitar seus objetivos, não são muito ambiciosos", diz. "É que nenhuma delegação quer voltar para casa dando a ideia que foi quem cedeu mais", continua. "O resultado disso é o mais baixo denominador comum."

Brown tem outra dúvida em relação a esse processo: o tempo. Ele lembra que há anos está se negociando o acordo climático e que já há quem diga que vai ficar para 2010 ou mais adiante. E, depois disso, serão necessários outros anos para que os países ratifiquem o acordo e ele entre efetivamente em vigor. "O jogo pode já ter terminado quando isto ocorrer. As mudanças estão acontecendo muito rapidamente", diz. A nova economia que tem de surgir para que se tenha algum futuro no planeta terá base nas energias renováveis, em sistemas de transportes públicos não calcados em combustíveis fósseis e em menos estresse sobre os recursos naturais. A urgência do processo é fundamental e tem que se dar, segundo ele, "em velocidade de tempos de guerra".

Lester Brown não é um sujeito de fácil definição. Formado em ciências agrícolas, com mestrado em administração pública, ele foi assessor de vários órgãos do governo americano na área e escreveu mais de 20 livros. Não é um ambientalista clássico, mas um dos mais famosos pensadores do movimento verde internacional. Seus livros (nem sempre muito otimistas) funcionam como um manual para quem é afinado com essas ideias. Em 1974, Brown criou o WWI, o WorldWatch Institute, uma centro de estudos do tema, hoje referência em estudos sobre energia. Todos os anos o WWI lança uma radiografia ambiental, o relatório "O Estado do Mundo". Brown agora preside outro centro de pesquisa, o Earth Policy Institute, com sede em Washington.

Para ele, evitar um forte aquecimento global depende de quatro fatores interligados: é preciso estabilizar o clima e a população, erradicar a pobreza e reduzir o estresse de recursos naturais como água, ar e solo. O derretimento das geleiras e o aumento no nível dos mares podem ter efeito imediato na produção de alimentos do mundo, o que terá um efeito global sinistro.

Mas ele tem algumas boas notícias. Diz que as emissões de gases-estufa nos EUA caíram 9% em dois anos, em boa parte pela recessão econômica, mas também pelos investimentos em energias renováveis. Foge dos exemplos já sabidos e cita o Texas, que vem apostando em energia eólica. Logo o Texas terá mais de 50 mil MW produzidos com energia dos ventos, o que corresponde a 50 termoelétricas a carvão. A China investe em seis megacomplexos de fazendas eólicas, que terão capacidade de gerar 105 mil MW. Há um enorme projeto envolvendo 20 empresas e bancos europeus para captar energia solar nos desertos do norte da África e levar energia elétrica à Europa.

Brown esteve no Brasil na semana passada. Está lançando outro livro, o "Plano B 4.0 - Mobilização para Salvar a Civilização" editado pela Ideia Sustentável e New Content, com patrocínio do Bradesco. Será distribuído a escolas, institutos e ONGs e com download gratuito no site do Bradesco a partir de novembro. "Há coisas acontecendo", diz. "A Argélia, por exemplo, diz que tem energia solar suficiente para toda a economia mundial. Parece um erro, mas não é."

 

Valor Econômico
São Paulo/SP
Internacional
27/10/2009

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