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Demanda por eletricidade se excede em era conectada

05/10/2009

Com dois filhos usuários de laptops e um cachorro terrier contido por uma cerca elétrica, Peter Troast já sabia que sua família usava muita energia elétrica. Mas, na verdade, só percebeu o quanto em uma noite em que eles desligaram as luzes de sua casa no Maine (EUA) e começaram a caçar equipamentos que brilhavam no escuro. "Foi incrível ver todas aquelas luzes cintilando", disse Troast.

Assim como a casa dele, todo o planeta brilha. O uso de eletricidade em equipamentos famintos por energia está aumentando rapidamente em todo o mundo. Televisores de tela plana passaram a consumir mais eletricidade que alguns refrigeradores.

A proliferação de computadores pessoais, iPods, celulares, consoles de jogo etc. representa a fonte de uso energético de crescimento mais rápido no mundo. Os produtos eletrônicos hoje respondem por 15% da demanda energética de uma família, e isso deverá triplicar nas próximas duas décadas, segundo a Agência Internacional de Energia.

Para satisfazer a demanda desses equipamentos, os EUA deverão construir o equivalente a 560 usinas de carvão ou 230 nucleares, segundo a agência.

A maioria dos especialistas em energia só vê uma solução: regras de eficiência obrigatórias, especificando quanta energia os equipamentos podem usar. Os eletrodomésticos como geladeiras são cobertos por essas regras nos EUA. Mas iniciativas para incluir produtos eletrônicos como televisores e consoles de jogos foram combatidas pelos fabricantes, preocupados com o aumento dos preços.

Parte do problema é que muitos equipamentos modernos não podem ser totalmente desligados; mesmo quando não estão sendo usados, eles gastam eletricidade enquanto esperam o sinal do controle de remoto ou aguardam para gravar um programa de TV.

"Entramos nessa nova era em que essencialmente tudo está ligado o tempo todo", disse Alan Meier, cientista sênior do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia, e especialista em eficiência energética.

É claro que as pessoas podem reduzir esse desperdício -mas para tanto é necessário ter uma mentalidade decidida.

Troast, que vende equipamentos de consumo eficiente, não desanimou diante da ideia de verificar atrás de seus armários para encontrar cada tomada de equipamento que brilhava no escuro, como caixas de TV a cabo, roteadores de internet e computadores.

Os Troast reduziram seu consumo mensal de eletricidade em cerca de 16%, em parte ligando seus computadores e equipamentos de entretenimento em extensões inteligentes. As extensões se desligam quando os artefatos não estão em uso.

Embora a experiência de Troast demonstre que os consumidores podem limitar a energia desperdiçada pelos equipamentos inativos, outro problema não é tão fácil de resolver: hoje, muitos produtos exigem grandes quantidades de energia para funcionar.

O maior agressor é o televisor de tela plana. Enquanto as telas de cristal líquido e plasma substituem os tubos de raios catódicos, e com o aumento do tamanho das telas, os novos televisores consomem mais energia que os modelos antigos.

Outro ralo de energia é o console de videogame. Noah Horowitz, do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, calculou que os consoles de jogos como Xbox 360, da Microsoft, PlayStation 3, da Sony, e Wii, da Nintendo, hoje usam mais ou menos a mesma quantidade de eletricidade por ano que San Diego, a nona maior cidade dos EUA.

Padrões de eficiência obrigatórios para equipamentos eletrônicos obrigariam os fabricantes a reprojetar seus produtos ou acrescentar componentes para controlar melhor o consumo de energia. Muitos fabricantes lutam contra essas obrigações porque aumentariam os custos, e eles também alegam que conteriam as inovações.

"As obrigatoriedades ignoram a natureza fundamental da indústria, que inova devido à demanda do consumidor e aos desenvolvimentos tecnológicos, e não aos regulamentos", disse Douglas Johnson, diretor de política tecnológica na Associação de Produtos Eletrônicos de Consumo.

Há estimativas variáveis sobre quanto custaria para os consumidores um programa de eficiência obrigatória. Para algumas mudanças, como garantir que os equipamentos utilizem energia mínima no modo de espera, os especialistas dizem que o custo poderá ser de apenas alguns centavos a mais. No outro extremo, o mais eficaz dos televisores hoje pode custar US$ 100 a mais que o de consumo menos eficiente.

(Essa despesa seria em parte compensada ao longo do tempo, é claro, pela menor necessidade de energia.) Mesmo hoje, quando o governo Obama e o Congresso americano se concentram em problemas energéticos, nenhuma legislação está sendo discutida para enfrentar a questão. Especialistas como Dan W. Reicher, que dirige as iniciativas energéticas da Google, afirmam que os EUA devem fazer melhor, dando um exemplo para o resto do mundo.

"Se não conseguirmos melhorar a eficiência de equipamentos simples e lhes dar maior utilidade, é difícil acreditar que teremos sucesso com coisas difíceis como limpar as usinas de energia movidas a carvão", disse Reicher.


Folha de São Paulo
São Paulo/SP
Ciência & Tecnologia
05/10/2009

 

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