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Brasil é "chave" para acordo sobre clima, diz negociador

04/09/2009

Brice Lalonde, embaixador da França encarregado das negociações internacionais sobre mudanças climáticas, vê o Brasil como a "chave" para se chegar a um acordo nas negociações sobre o clima que serão realizadas na conferência em dezembro, em Copenhague, a CoP-15. "O Brasil pode ser a ponte entre os países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] e os países emergentes. Sem falar que tem uma carta na manga para negociar, um "ás", que é a floresta amazônica", disse Lalonde.

O embaixador veio ao Brasil a convite da FGV Projetos para participar do Seminário Internacional sobre "Biocombustíveis e Energia Nuclear - As melhores fontes energéticas para o Desenvolvimento Sustentável", aberto ontem e que se encerra hoje, no Rio. O seminário faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil.

Para o negociador francês, com passado de militante ambientalista, a influência positiva do Brasil sobre os países emergentes pode ajudar nas negociações da convenção das mudanças climáticas. Ele revelou que tem havido um crescimento das emissões de carbono entre os emergentes. "A China hoje já emite mais que os Estados Unidos", diz. A razão disso é o que define como ritmo frenético de desenvolvimento desses países. "Os chineses sabem que não poderão continuar a crescer com taxas entre 8% a 10% ao ano com energia de carvão sujo", alertou.

Apesar dos elogios ao Brasil, Lalonde também se referiu ao crescimento das emissões de carbono brasileiras, mesmo sem considerar o desmatamento da floresta amazônica. E mostrou preocupação com a descoberta do petróleo do pré-sal. "O Brasil é um país virtuoso por ter várias matrizes energéticas limpas, como a hidráulica, a eólica, o etanol, mas agora encontrou petróleo. O que vai fazer com ele?"

O embaixador não descartou a possibilidade de a França aderir ao Fundo Amazônia, criado com base numa contribuição da Noruega e agora da Alemanha para preservar a floresta. Mas considerou uma contradição a Noruega ajudar a manter a floresta com dinheiro das receitas de petróleo. Ele disse desconhecer o gestor, mas ao saber que era o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lamentou que ele gerisse o fundo ao mesmo tempo em que dava crédito para térmicas movidas a carvão. Mesmo assim achou importante o governo cuidar do Fundo Amazônia, apesar de defender como melhor solução para preservação de florestas como a Amazônica o regime de concessão a empresas, como está sendo feito na África, onde 600 mil hectares de mata já está sob o regime de concessão de 30 anos.

Lalonde mostrou curiosidade em relação aos projetos que o Brasil pode apresentar em Copenhague na área de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (Redd), que envolve o controle de suas próprias emissões pelas indústrias. "A ideia é muito importante, porque se não se tem a indústria junto na preservação da floresta, não se chega ao resultado que se pretende." Ele elogiou o movimento dos empresários brasileiros de apoio a mudanças climáticas.

O ex-militante ambientalista dos anos 70 aposta que apesar das diferenças entre países ricos, emergentes e países pobres, deve sair um grande acordo da CoP-15. "Mas não será absoluto, total e as conversas devem se desdobrar mais à frente, nas preparações para Kyoto, em 2012."

Ele adiantou que a França e os demais países da União Europeia já fecharam posição unilateral para a CoP-15. Esses países vão reduzir suas emissões de carbono em 20% até 2020, tendo por base o patamar das emissões levantadas na 1ª Conferência do clima, em 1992, realizada no Rio. "A UE pode reduzir as emissões a até 30% caso haja um acordo de todos os países nessa direção."

Segundo Lalonde, a orientação geral dos países do G-8 é chegar a 80% de redução de emissões até 2050. No entanto, muitos países do próprio G-8 não se dispõem a tomar medidas imediatas para atingir essa meta. E muitos acabam adiando-as. "A ideia principal em relação a uma trajetória para se chegar aos 80% em 2050 é saber como e o que fazer para alcançá-la", afirmou o negociador francês.

Na sua opinião, é importante debater essas questões com os Estados Unidos, pois para alcançar a meta de corte de 80% das emissões globais em 2050 é preciso começar a agir já para reduzir as emissões de CO2. Lalonde acredita que a administração americana mudou para melhor, mas observou que tanto as questões de clima, quanto as do Tratado de Kyoto não são decididas diretamente pelo presidente Barak Obama. "Elas têm que passar pelo Senado americano", afirma. Por essa razão, ele teme que os americanos não voltem a aderir ao novo Tratado de Kyoto.

Lalonde defende que os países em geral precisam ser ajudados na transição para o consumo de um tipo de energia limpa. "Não há tipo de energia perfeita, para todas temos que pagar algum preço." Mas ele defendeu que o Brasil e a França se tornem parceiros na luta pela implementação de uma nova matriz energética no futuro. "A produção de eletricidade através de energia nuclear, que não emite CO2 e a produção do etanol para ser consumido pelo sistema de transporte mundial é uma associação muito boa para o mundo", afirmou.

Ao ser indagado se a França vê a mudança climática como uma oportunidade de negócios na área nuclear, Lalonde respondeu que o governo francês a vê como uma ameaça, mas nada impede que a defesa da mudança climática seja usada para mostrar que a energia nuclear é livre de carbono. Ele confessou que, como os militantes do Partido Verde francês, foi contra a energia nuclear quando era jovem. Hoje ele reconhece que a tecnologia dos reatores está muito avançada e mais segura. "A ideia de prescindir dos combustíveis fósseis é muito difícil, mas vejo a energia nuclear e o etanol viáveis como solução global no longo prazo", ponderou.




Valor Econômico
São Paulo/SP
Geral
04/09/2009

 

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