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Gerdau vê reação da economia com cautela

21/08/2009

Apesar dos sinais de recuperação gradual dos níveis de atividade nos últimos meses, a crise econômica global que estourou em setembro do ano passado ainda promete pesar por um certo tempo sobre a siderurgia. Para o grupo Gerdau, um dos maiores produtores mundiais de aço, líder nas Américas em aços longos, o retorno aos índices médios de utilização de capacidade instalada de 85% a 90% observados até agosto de 2008 nas usinas que opera no Brasil e no exterior vai demorar mais um a dois anos, disse o presidente do grupo, André Gerdau Johannpeter.

 

"Não é para amanhã", afirmou o empresário. Segundo ele, o indicador está entre 60% e 70% na média do grupo, mas ainda fica pouco acima de 50% nos Estados Unidos devido ao impacto maior da crise nas economias mais desenvolvidas. No Brasil, o nível de atividade está mais alto. Na sua principal usina, a Açominas, chega a 75%, depois que, em julho, reativou seu maior alto-forno, com capacidade de 3 milhões de toneladas anuais, e decidiu manter operando um outro com metade da capacidade que seria paralisado.

 

Johannpeter procura equilibrar as projeções entre a "cautela" herdada da crise, a "vontade" do grupo de continuar crescendo e a "confiança" proporcionada pelos indicadores mais recentes. "Estou convencido que a recuperação vai acontecer, mas ainda não estou convencido de que não teremos alguma recaída no meio do caminho, o que não é improvável pois a crise não acabou no mundo".

 

Mas o viés cauteloso do executivo, que também é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia, parece ganhar mais força quando mostra uma visão bem realista do momento. A primeira evidência é a reserva em relação ao que ele classifica de "excesso de otimismo" com o ritmo de retomada da economia, principalmente por parte do mercado financeiro - que voltou a crescer sem novas regulamentações para evitar a repetição da catástrofe de 2008 - e acionário.

 

Na Gerdau, que fez um ajuste fundo no primeiro semestre - e ainda deverá continuar ao longo deste resto de ano -, a prioridade hoje é reocupar a capacidade de produção dos ativos atuais, alinhada com a volta gradativa da demanda. Compra de ativos no exterior como as que movimentaram o grupo até o início do ano passado e a implementação de projetos já anunciados, como novas usinas na Argentina e Peru e uma laminadora de US$ 400 milhões no Brasil para fabricar chapa grossa, ficarão "à espera do melhor momento" para sair do papel. "Nosso foco agora é a adequação do grupo ao tamanho do mercado e ocupar as usinas à medida que ele voltar a crescer".

 

A onda global de consolidações no setor, afirma, tende a voltar no futuro, porém em outros parâmetros. A siderurgia é mais "pulverizada" do que segmentos com os quais ela se relaciona, como as mineradoras de ferro e carvão e a indústria automotiva. "Mas não sei se vai ser na velocidade que se viu de 2005 a 2007". No longo prazo, a Gerdau mantém sua estratégia de diversificação por regiões de operação e por portfólio de produtos, incluindo um avanço gradativo no negócio de aços planos, onde estão as brasileiras Usiminas e CSN . A base de entrada será a Açominas.

 

O novo cenário levou o grupo a anunciar em fevereiro a revisão do programa de investimentos de US$ 6,4 bilhões em modernização e expansão da capacidade, de 2008 a 2010, com a redução do valor para US$ 5 bilhões e a ampliação do prazo para desembolso até 2013. Tirando o valor aplicado no ano passado, restaram US$ 3,6 bilhões em cinco ano, valor que ainda pode ser alterado. Para este ano, está confirmado o orçamento de US$ 550 milhões.

 

A companhia, que opera 59 usinas no Brasil e exterior, dedicou os últimos meses a um forte ajuste operacional e financeiro para adequar-se ao novo patamar do mercado, afirmou o empresário. Os custos industriais fixos caíram 41% desde janeiro, incluindo demissões de pessoal, reduções de jornada e suspensões de contratos de trabalho. Johannpeter não revelou quantos funcionários foram atingidos pelas medidas de cortes. Ele alega que se trata de um dado "sensível" que pode ser "mal-interpretado".

 

O executivo informou que algumas contratações já começaram a ser feitas pela companhia no segmento de corte e dobra de aço usado na construção civil, por conta do crescimento da atividade no setor imobiliário.

 

No pacote de ajuste, disse que o endividamento bruto consolidado foi reduzido de R$ 23,2 bilhões para R$ 18,9 bilhões desde dezembro e a necessidade de capital de giro, considerando-se créditos a receber de clientes, estoques e a conta de fornecedores, caiu de R$ 11,2 bilhões para R$ 7,5 bilhões. O semestre fechou com prejuízo de R$ 294 milhões devido à baixa gerada na atualização do valor de ativos imobilizados, intangíveis e ágio exigida pelas normas internacionais de contabilidade, a IFRS, adotadas desde 2007 em seus balanços.

 

Nos três últimos trimestres, de setembro de 2008 a junho, o grupo conseguiu desovar estoques de 1 milhão de toneladas de aço, o equivalente à diferença entre as 8,9 milhões de toneladas produzidas e as 9,9 milhões vendidas no período. No primeiro semestre, a produção alcançou 5,6 milhões de toneladas, 47% a menos do que um ano atrás. As vendas recuaram 39%, para 6,4 milhões de toneladas.

 

Embora os indicadores de desempenho ainda mostrem quedas acentuadas na comparação com o período antes da crise, alguns números conseguiram inverter a curva iniciada no fim de 2008 e já foram maiores do que nos três meses imediatamente anteriores. A produção, por exemplo, passou de 2,5 milhões para 3,1 milhões de toneladas e o volume vendido, de 3,1 milhões para 3,4 milhões de toneladas. Em julho, as vendas subiram em torno de 15% ante junho e em agosto seguem em ritmo similar.

 

Mesmo assim, o empresário mantém a cautela. "Ainda estamos na crise e é cedo para dizer se a recuperação da economia é sustentável". Afirma que não é possível saber com certeza quanto da retomada é para reposição dos estoques na cadeia de consumo, que ficaram muito baixos, e quanto se dá em função da demanda, de fato. "Com o estouro da crise, todo mundo parou de comprar. E quando há uma reativação, a cadeia demora para ser reabastecida", explicou. Mas acredita que desde junho já ocorre um misto das duas situações.

 

No Brasil, que já chegou a ter sete alto-fornos (de diferentes empresas) desligados, afirmou que a retomada está sendo estimulada pelas várias medidas de apoio do governo, como redução no IPI para carros e bens de linha branca, incentivos ao crédito, o programa Minha Casa, Minha Vida e em medida menor pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

 

"Começa a haver uma movimentação econômica interessante", disse. O importante, observou, é a manutenção da tendência de recuperação dos indicadores econômicos nos próximos trimestres para restabelecer a confiança. Os preços dos aços longos no mercado à vista, mundialmente, tiveram aumento desde meados de junho. A alta variou entre US$ 50 e US$ 100 a tonelada. Boa parte disso já se deve à pressões de aumento de custos de matérias-primas e insumos, como ligas e sucata, bem como da tarifa dos fretes. "De janeiro a março, vimos o fundo do poço."

 

Uma nova preocupação é com o câmbio. A valorização do real, diz, afeta as exportações de aço e bens como autopeças e automóveis e reduz a competitividade da produção siderúrgica brasileira ante a de países como Rússia e Ucrânia, explicou Johannpeter. Para ele, o Brasil já não detém o maior grau de competitividade para se fazer aço no mundo.

 

A América do Norte, que no primeiro semestre respondeu por 40% da produção consolidada do grupo, a queda bateu em 50% depois do estouro da crise. Nesse mercado, já se começa a ver "sinais leves de recuperação", igualmente turbinados pelos estímulos governamentais. Segundo o executivo, a GerdauAmeristeel está "bem posicionada" para atender à retomada na demanda local na construção residencial e não-residencial, infraestrutura e automobilístico.

 

A reação americana animou a Gerdau a cancelar o fechamento da usina de Sayreville, no Estado de Nova Jersey, que havia sido anunciado em junho. Mesmo assim, a laminação de Perth Amboy, também em Nova Jersey, será desativada até setembro sem perspectiva de reativação a curto prazo. Já a paralisação da usina Sand Springs, em Oklahoma, segue em negociação com o sindicato dos trabalhadores da siderurgia no país, o United Steel Workers. 




Valor Econômico

São Paulo/SP

Siderurgia

21/08/2009

 

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