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Mudanças climáticas – uma emergência planetária?

16/03/2009

A crise financeira mundial colocou em evidência a dicotomia na forma de os países desenvolvidos, principalmente, tratarem dois fenômenos de igual impacto para o mundo atual e futuro: a sustentabilidade econômica e a sustentabilidade ambiental. Em geral, as crises só são levadas a sério quando já não é possível evitá-las. Alan Greenspan, ex-presidente do FED, (Banco Central Americano) teve pouco sucesso ao denunciar o que qualificou de "exuberância irracional". Outra profecia, bem mais antiga, sobre a alavancagem do mercado, tampouco encontrou eco nos meios financeiros do seu tempo: "Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito, não pago, levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado." Karl Marx, Das Kapital, 1867.
Logo que a crise passou do campo teórico para o prosaico mundo real, os Bancos Centrais dos países ricos reuniram-se e, rapidamente, liberaram centenas de bilhões de dólares, que, ao longo de 2008, viraram mais trilhões de dólares, no afã de debelar uma crise que migrou da esfera financeira para a esfera produtiva. Esta crise está longe de se resolver e, em 2009, teremos muitos trilhões de dólares, ainda, despendidos. Vide os novos pacotes do Governo Obama.
Frente à crise das mudanças climáticas, os países ricos adotam uma mesma retórica, mas não agem com a mesma presteza, nem se dispõem a investir trilhões. Imaginemos que uma fração dos gastos atuais, no combate a crise, tivesse sido despendida, entre 1990 a 2008, em desenvolvimento de tecnologias de mitigação dos danos ambientais (energias eólica, solar, captura e armazenamento de carbono), ou em formas de adaptação às mudanças climáticas. Para ilustrar esta verdade, há anos pesquisadores buscam, na União Européia, financiamento para 20 plantas de demonstração da tecnologia de captura e armazenamento geológico de carbono – CCS, o que custaria meros 20 bilhões de euros... Em vez de ações concretas, esses governos gesticulam e gastam suas energias em algo que pode ser qualificado como "o circo de viagens das mudanças climáticas": reuniões e conferências pelo mundo afora. Se as mudanças são, realmente, uma emergência planetária, porque os países ricos não propõem ações concretas, como criar um fundo de carbono para financiar o salto tecnológico dos países em desenvolvimento, para uso de tecnologias mais limpas? Esta posição vem sendo defendida pela Associação Brasileira do Carvão Mineral, desde 2004, em vários fóruns internacionais e nacionais.
Mais realistas que o rei, mais papistas que o Papa, alguns formadores de opinião tupiniquins, fazem coro com os paladinos do conservacionismo puro, no país dos outros, é claro. Tolerância Zero para o desenvolvimento dos emergentes! Será que eles esperam que um país com 45 % de energia renovável, em sua matriz, e com 80 milhões de indivíduos, incluídos no programa de baixa renda, energia elétrica subsidiada pela parcela da população que paga impostos, pague essa conta? No ano de negociações mundiais sobre as mudanças climáticas, o Brasil deve ter lucidez para negociar tendo como seu maior trunfo o crédito ambiental, que é a sua matriz energética renovável e que vai continuar limpa em 2030, mesmo que inclua um percentual de usinas térmicas, necessárias para a otimização do sistema hidrotérmico brasileiro e que contribuem para a segurança energética do País.
A energia elétrica faz parte de nossa vida cotidiana e sempre a temos tão fácil quando acendemos o interruptor ou movemos uma máquina, mas esquecemos que tem uma indústria por trás daquele elétron. Ela só é lembrada quando falta... Mesmo que os países ricos não ajam de forma responsável e concreta nessa "crise", nós temos o dever de tomar medidas para minimizar os impactos que todas as formas de energia têm sobre o ambiente: conservando energia, água, reciclando, em enfim, todas as práticas que os nossos avós adotavam e que a sociedade moderna esqueceu daí a necessidade de desenvolvermos, hoje, programas de educação ambiental. O "Verde ou Green" virou moda e um grande negócio no mundo. A abundância e baixo custo conduzem ao desperdício e a baixa eficiência.
Talvez por isso, países ricos como os da Europa busquem a todo custo a eficiência energética "já que os russos estão chegando" venda isso como "Green".
E para socializar o custo das formas de energia mais caras já que todas as formas de mitigação terão um aumento de custo na energia, querem que todo o mundo as adotem.  Como 1,6 bilhão de pessoas, hoje no mundo, que não tem acesso a energia vão paga-la? Só a Índia pretende colocar 450 milhões de pessoas com acesso à energia nos próximos 20 anos e a graças ao acesso a energia de 700 milhões de pessoas a China reduziu a pobreza e chega a ser a potência emergente de hoje. Por tudo isso, o questionamento se mudança climática é uma emergência planetária ou um grande jogo econômico e tecnológico onde seremos novamente colonizados.

Fernando Luiz Zancan – engenheiro de Minas e presidente da ABCM (Associação Brasileira do Carvão Mineral)



Jornal da Manhã

Criciúma/SC

Artigo

14 e 15/03/2009

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