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Uma recuperação sustentável

25/11/2008

A recessão mundial ora em curso é o resultado não somente de um pânico financeiro, mas também de incertezas mais básicas sobre a futura direção da economia mundial. Os consumidores estão se abstendo de comprar moradias e automóveis não apenas porque sofreram um impacto redutor em sua riqueza devido à queda nos preços das ações e nos valores das moradias, mas também porque não sabem para onde ir. Deveriam eles apostar na compra de um carro novo se o preço da gasolina pode disparar novamente? Terão eles condições de pôr comida na mesa após o aterrador aumento nos preços dos alimentos neste ano? 

 

As decisões sobre investimentos empresariais são ainda mais graves. As empresas estão relutantes em investir, num momento em que a demanda do consumidor está desabando e estes se defrontam com penalidades de risco sem precedentes sobre custos na tomada de empréstimos. Eles estão também defrontando-se com enormes incertezas. Que tipos de usinas de eletricidade serão aceitáveis no futuro? Terão elas permissão para emitir tanto dióxido de carbono quanto no passado? Poderão os EUA continuar a arcar com os custos de um estilo de vida suburbano, com grandes residências em bairros distantes que exigem longas viagens casa-trabalho? 

 

 

Em larga medida, a recuperação econômica dependerá de uma percepção muito mais clara do rumo das futuras mudanças econômicas. Isso é fundamentalmente incumbência do governo. Após a confusa e equivocada liderança do governo Bush, que não sinalizou nenhum caminho claro nos setores de energia, saúde, clima, e políticas financeiras. O presidente eleito Barack Obama terá de começar a plotar um curso que defina a direção futura para a economia americana. 

 

 

Os EUA não são a única economia nessa equação. Necessitamos uma visão global de recuperação sustentável que inclua os líderes na China, Índia, Europa, América Latina e, sim, até mesmo da África, há muito marginalizada da economia mundial, mas que agora constitui grande parte dela. 

 

 

Existem poucos pontos claros em meio a grandes incertezas e confusões. Em primeiro lugar, os EUA não podem continuar a tomar emprestado do resto do mundo como nos últimos oito anos. As exportações líquidas dos EUA terão de crescer, o que significa que, em conseqüência, as exportações líquidas da China, do Japão e de outros países superavitários diminuirão. Os ajustes necessários equivalem a uma substancial reversão na relação déficit/superávit da conta corrente americana - em torno de US$ 700 bilhões, ou quase 5% do Produto Nacional Bruto (PNB). 

 

 

O superávit comercial chinês poderia ser reduzido em 50% daquele montante (com cortes em superávits comerciais também distribuídos por outras regiões do mundo), o que significaria uma guinada para o PNB chinês - mais focada na demanda interna e mais distante das exportações líquidas -, igual a 5% a 10% do PNB chinês. Felizmente, a China está promovendo uma grande expansão interna. 

 

 

Em segundo lugar, o declínio no consumo americano deveria também ser parcialmente contrabalançado por um crescimento dos investimentos nos EUA. Entretanto, as empresas privadas não intensificarão seus investimentos, a menos que haja uma direção política clara para a economia. Obama enfatizou a necessidade de uma "recuperação verde", ou seja, uma retomada baseada em tecnologias sustentáveis, e não simplesmente em gastos com consumo. 

 

 

A indústria automobilística americana precisa ser reformulada de modo a produzir carros que produzam emissões com baixo teor de carbono, sejam híbridos ou veículos movidos unicamente a baterias. Tanto uma como a outra dessas tecnologias dependerá de uma rede nacional de eletricidade que empregue formas de geração de eletricidade que produzam baixas emissões, como eólica, solar, nuclear ou a carvão que capturem e armazenem as emissões de dióxido de carbono. Todas essas tecnologias exigirão financiamento público ao lado de investimento privado. 

 

 

Em terceiro lugar, a recuperação americana será crível somente se houver também uma estratégia para repor em ordem as finanças do próprio governo. A concepção de política econômica de George W. Bush foi cortar os impostos três vezes, ao mesmo tempo em que aumentou os gastos bélicos. O resultado é um enorme déficit orçamentário que explodirá para proporções descomunais no ano que vem (possivelmente para US$ 1 trilhão) sob o peso adicional de recessão, socorro a bancos e medidas de estímulo fiscal de curto prazo. 

 

 

Obama precisará apresentar um plano fiscal de médio prazo que recomponha as finanças governamentais. Isso incluirá o fim da guerra no Iraque, elevar os impostos sobre os ricos e também instituir gradualmente novos impostos sobre o consumo. Os EUA atualmente arrecadam a menor proporção de impostos sobre a renda nacional entre os países ricos. Isso terá de mudar. 

 

 

Em quarto lugar, as regiões pobres do mundo precisam ser vistas como oportunidades de investimento, e não como ameaças ou lugares a ser ignorados. Num momento em que as maiores empresas de obras de infra-estrutura dos EUA, Europa e Japão terão graves excessos de capacidade, o Banco Mundial, o Banco Europeu de Investimentos (BEI), o Banco de Fomento à Exportação-Importação (Eximbank) dos EUA, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e outros fundos de investimento estatal deveriam financiar grandes gastos com infra-estrutura na África - para construir rodovias, usinas de eletricidade, portos e sistemas de telecomunicações. 

 

 

Se os créditos forem de longo prazo e implicarem juros moderados (digamos, empréstimos em dólar por 25 anos a 5% ao ano, os países beneficiários poderiam honrar esse endividamento com base no considerável incremento das rendas resultante no curso de uma geração. Os benefícios seriam extraordinários, tanto para a África como para os países ricos, que assim colocariam suas empresas e mão-de-obra especializada de volta em ação. Esse tipo de empréstimo, naturalmente, exigiria uma ampla iniciativa mundial, num momento em que até mesmo companhias de primeiríssima linha não conseguem tomar empréstimos no curtíssimo prazo, muito menos por 25 anos! 

 

 

Em ciclos econômicos típicos, os países geralmente administram sua recuperação fundamentalmente por conta própria. Desta vez, necessitaremos cooperação mundial. A recuperação demandará importantes mudanças em desequilíbrios comerciais, tecnologias e orçamentos governamentais. 

 

 

Essas mudanças de larga escala terão de ser coordenadas, pelo menos informalmente, se não rigidamente, entre as principais economias. Cada uma delas precisará compreender as direções básicas de mudança que serão necessárias em nível nacional e mundial, e todos os países precisam compartilhar a mobilização de novas tecnologias sustentáveis e a implementação do financiamento conjunto das responsabilidades mundiais, como o incremento dos investmentos em infra-estrutura na África. 

 

 

Chegamos a um momento na história em que liderança política mundial cooperativa é mais importante do que nunca. Felizmente, os EUA deram um enorme passo à frente, com a eleição de Obama. Agora, à ação. 

 

 

Jeffrey Sachs é professor de Economia e diretor do Instituto Terra, na Universidade Colúmbia. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org 



Valor Econômico

São Paulo/SP

Opinião

25/11/2008

 

 

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