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"Brasil precisa de um choque de oferta"

15/09/2008

As relações comerciais entre Brasil e China cresceram de US$ 2,3 bilhões há oito anos para mais de US$ 16 bilhões em 2008. Um salto de 700% que posiciona a maior nação asiática como 2º maior parceiro internacional do País. O volume de investimentos diretos chineses em empreendimentos no Brasil já alcançou US$ 10 bilhões em projetos nos segmentos de bioquímica, siderurgia, e mineração, sem contar as perspectivas na área de petróleo e gás.

Ao enumerar valores tão robustos, o economista formado em Cornell, EUA, com pós-graduação na Universidade de Paris V Sorbonne, França, não contém sua satisfação. Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, cumpre uma rotina pesada de reuniões diárias para discutir desde a entrada de montadoras chinesas no mercado brasileiro a contatos entre produtores de cana-de-açúcar e grupos empresariais do setor de química fina, interessados na produção de aminoácidos a partir do etanol.

As relações comerciais entre Brasil e China têm muito espaço para crescer, avalia Tang.. A corrente de comércio entre os dois países deve superar a cifra de US$ 30 bilhões no próximo ano, mas ele acredita que o potencial brasileiro é maior. Na opinião de Tang, o País precisa se inspirar nos tigres asiáticos e realizar um choque de oferta para acabar com o que chama de modelo econômico de pobreza. Esta guinada faria com que os brasileiros encontrassem o caminho do crescimento sustentado.

De outro lado, os chineses, que apresentam há 25 anos o maior nível de crescimento econômico, também enfrentam dificuldades. O presidente da câmara aponta que as sólidas reservas internacionais chinesas, que somam US$ 2 trilhões, trazem muitas vantagens mas alguns desafios. Os mesmos recursos que aceleram a inclusão social, provocam pressões cambiais e inflacionárias do mesmo porte. A alternativa é ampliar os investimentos no exterior. Este aspecto favorece o Brasil que se apresenta como um parceiro estratégico por deter os recursos que a China necessita para suportar sua forte expansão.

Graduado tardiamente em advocacia pela Universidade Estácio de Sá, Tang circula sem parar entre escritórios em Shanghai, São Paulo e Rio de Janeiro, além de contatos com familiares em Nova York (EUA). Sua chegada ao País remonta há três décadas e está ligada ao surgimento do segmento de leasing no mercado nacional. Precursor, Tang foi o fundador de 11 companhias deste setor. A primeira operação foi montada para o BankBoston. Ao sair, foi substituído por Henrique Meirelles, hoje no comando do Banco Central do Brasil. Nesta entrevista à Gazeta Mercantil, Tang analisa a estratégia de negócios chinesa, as oportunidades para os investidores brasileiros e as boas lições de economia que vêm do outro lado do mundo.

Gazeta Mercantil - O que é necessário para dinamizar a relação comercial entre o Brasil e a China?

Desde que o mundo virou multipolar, com a China como uma potência econômica em escala mundial e a unificação da Europa, a parceria estratégica e comercial entre os dois gigantes se torna cada vez mais importante. Quando a China assumiu a posição de locomotiva mundial, um dos países que mais se beneficiaram com isso foi o Brasil, que acumulou US$ 200 bilhões de reservas. Essa parceria estratégica é recente e deve aumentar. Em 1999 a corrente comercial entre os países foi de US$ 1,5 bilhão e até o fim do próximo ano deve estar em mais de US$ 30 bilhões. Cada vez mais a China terá de investir no Brasil para assegurar os produtos estratégicos que necessita para o seu crescimento continuado e para alimentar seu povo.

Gazeta Mercantil - Em quais áreas os chineses têm interesse em investir no Brasil?

Nas áreas ligadas a produtos estratégicos, como minério e usinas de aço. Para a China, em vez de transportar minério é melhor embarcar o aço, por causa do frete. Em vez de importar bauxita, vamos importar alumínio. A Chalco (Aluminum Corporation of China Limited) vai investir junto com a Companhia Vale do Rio Doce (Vale) entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões (em alumínio). Vamos comprar também muita terra para plantio de soja e criação de gado.

Gazeta Mercantil - Já existe algum empreendimento no agronegócio com capital chinês?

Os chineses trouxeram um investimento em biotecnologia para produzir aminoácidos com um usineiro brasileiro. O representante da usina já foi à China, os chineses, do BBCA Group, já vieram ao Brasil. O País pode ser o maior fabricante mundial de bioquímicos e bioplásticos com a cana-de-açúcar. Em vez de usar a cana só para álcool e açúcar, pode fazer um produto nobre que vale 4 ou 5 vezes mais, que seriam os aminoácidos

Gazeta Mercantil - Parte do capital do fundo soberano chinês pode vir para o Brasil?

Além de investir nestes produtos siderúrgicos, minas, minérios e soja, os chineses também têm interesse em participar de obras de infra-estrutura junto com empreiteiras brasileiras ou até de forma isolada, como está fazendo na termelétrica de Candiota, a carvão, com nova tecnologia não poluente. Estamos tratando de outra usina termelétrica para Santa Catarina. Traremos as montadoras de automóveis e fábricas de vidros planos, porque o Brasil não tem capacidade para atender a demanda. São vários projetos que devem envolver recursos chineses para o Brasil e estamos ajudando vários brasileiros a investir na China.

Gazeta Mercantil - Quanto a China pretende investir no Brasil? Se colocarmos Baosteel, são US$ 6 bilhões. Quando se fala da Chalco, nos referimos a mais US$ 2 bilhões. Os projetos de vidro plano e montadoras de automóveis somam mais de US$ 1 bilhão. Tudo pode chegar a US$ 10 bilhões, fora a área de petróleo e gás.

Gazeta Mercantil - Quais projetos novos estão em andamento?

Estamos ajudando uma grande indústria farmacêutica chinesa a comprar uma empresa do setor no Brasil. O presidente da maior fábrica de sondas de prospecção de petróleo está interessado em montar um estaleiro no País. Estamos falando de investimentos chineses na área de petróleo e gás, bioquímica e também química fina.

Gazeta Mercantil - Como o governo chinês apóia estes investimentos?

O governo chinês encoraja as empresas de maior experiência internacional a investir cada vez mais fora do país. A China tem um grande problema. Ela está com US$ 2 trilhões em reservas, se somarmos Hong Kong e Macau. Isso é bom e é ruim também. Traz problemas de pressão inflacionária porque é preciso emitir moeda local. A China perde por ter a suas reservas em dólar com a desvalorização da moeda norte-americana. Por isso existe o fundo soberano para tentar conseguir um retorno um pouco melhor.

Gazeta Mercantil - Mas há vantagens.

Uma vantagem é que o país, com US$ 2 trilhões em reservas, pode acelerar a inclusão social do povo chinês. Nos últimos 25 anos a China realizou a maior conquista em direitos humanos ao tirar 480 milhões de pessoas da pobreza para viver com maior dignidade e participar da vida econômica do país. Com este dinheiro, ela pode acelerar este processo. A China está gastando muito para reduzir a poluição e tem de importar energia limpa do Brasil, na forma do bom etanol de cana, e não a do mau etanol, feito a partir do milho.

Gazeta Mercantil - Há novas oportunidades de negócios na China ?

O custo Brasil e o modelo econômico brasileiro fazem com que os empresários nacionais que queiram crescer e expandir sejam forçados a gerar emprego fora do Brasil, em países de menor custo. E a China é um deles. Apesar de tudo isto, existem muitos nichos no mercado chinês para a indústria brasileira. A Embraer já tem pedido de 100 aviões. A Fame está vendendo chuveiros elétricos. Antes da Fame entrar no país, para se ter água quente era necessário instalar um boiler caro. Para a empresa, o mercado para chuveiros elétricos é de 1,37 bilhão de pessoas porque o produto custa US$ 10. Mesmo quem não está participando da vida econômica tem US$ 10.

Gazeta Mercantil - Há outros espaços para as empresas brasileiras?

Existe o nicho de mercado para o café brasileiro. Durante o período de ausência das indústrias brasileiras no país, os chineses aprenderam a tomar café da Suíça e dos Estados Unidos, que não produzem café, e a tomar suco de laranja da Europa, que não tem laranja. Importam móveis finos de couro e madeira da Itália, que não tem nem couro nem madeira. Temos que recuperar estes mercados e estamos fazendo isso. Há seis anos e meio, em uma palestra na Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo (RS), disse aos calçadistas que existia um gigantesco nicho de mercado para eles na China. Se tivessem feito alguma coisa naquela época muitos deles não teriam fechado.

Gazeta Mercantil - Um dos maiores iate clubes do mundo está em construção na China. O número de bilionários cresceu no país?

Os Estados Unidos são o número um com 420 bilionários e a China é o segundo colocado com 240. A matriz de tudo isto é o capitalismo. Gazeta Mercantil - Que lição a economia brasileira poderia tirar do modelo chinês?

O monetarismo é uma teoria brilhante e útil de administração pública que usa crédito, juro e instrumentos ficais para esta finalidade. No Brasil esta teoria foi utilizada como a solução de todos os problemas de crescimento e prosperidade. E assim, plano após plano monetarista, ficamos cada vez mais pobres e não conseguimos crescer. Somos tão bons administradores monetaristas que temos a fama de ser os melhores administradores de pobreza do mundo. Com a incapacidade de gerar riqueza, a gente sabe sim, e muito bem, administrar a pobreza.

Gazeta Mercantil - Como sair desta armadilha?

Nos últimos 30 anos a prioridade chinesa foi prosperidade a qualquer custo, mesmo com algum impacto ambiental e desigualdade social. No Brasil, a prioridade sempre foi estabilidade monetária a qualquer custo, mesmo mantendo a economia estagnada e a pobreza sustentada. Sempre que a economia ameaça crescer, se aumenta a taxa de juros para abafar esta tentativa de expansão porque ela pode atrapalhar a estabilidade da moeda. Existem alternativas.

Gazeta Mercantil - Mas é necessário conter a inflação.

Só aprendemos a cortar a demanda. Nunca aprendemos a fazer como os tigres asiáticos, a dar um choque de oferta para acabar com a instabilidade monetária. É possível criar estabilidade monetária no equilíbrio entre oferta e demanda em patamares menores ou em patamares maiores, com crescimento econômico, aumentando a oferta. No Brasil temos uma fábrica de bicicletas, na China há 500. O País não tem nenhuma fábrica de locomotivas e vagões. A China tem 28. Desde os anos 60, os tigres asiáticos utilizaram custos baixos não só de mão-de-obra mas decorrente também da eliminação de entraves, sem uma CLT onerosa e draconiana, sem os maiores juros do mundo e com câmbio favorável para poder gerar riqueza por meio da exportação.

Gazeta Mercantil - A China também tem uma preocupação com inflação. Como ela lida com isto?

Há cinco anos a China está tentando combater o seu crescimento justamente para conter a inflação que as reservas, as exportações em excesso provocam. O governo chinês já aumentou a taxa de juros mais de oito vezes nos últimos dois anos, aplicou taxas de redesconto bancário para enxugar liquidez, tirou até a devolução fiscal sobre praticamente todos os produtos de exportação. As autoridades sobretaxaram as exportações de aço e cimento e de produtos que causam mais poluição ou demandam mais energia. Brinco com meus colegas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) que o maior parceiro deles em relação a salvaguardas contra os produtos chineses é o governo da China.

Gazeta Mercantil - Esta não é uma receita monetarista?

O monetarismo é para usar na administração da economia do País e não para um programa de desenvolvimento. São duas coisas completamente diferentes. Sempre defendo a tese de que o Brasil tem muito mais condições do que China ou Japão de ser o maior tigre de exportações do mundo e ser uma superpotência mundial.

Gazeta Mercantil - Apoiado somente em exportação de commodities ou em manufaturados?

Baseado só em uma visão política de prosperidade de um líder que possa levar o País a realizar o "brazilian dream". O Brasil é tão fácil de mudar que Juscelino Kubitschek em um governo transformou uma sociedade rural em uma economia industrial e o Fernando Collor de Mello, em menos de meio mandato, mudou o conceito do País e os sete planos e pacotes econômicos fizeram profundas reestruturações. Tudo começa com a visão de um líder, depois passa por um plano para a nação e planejamento estratégico de curto e longo prazos.

Gazeta Mercantil - Por que este modelo não muda?

O Brasil tem dois recursos que não explora e não compreende. Já vivi em muitos países e o povo brasileiro é um dos mais disciplinados e patriotas que existem. Não há povo mais necessitado do sonho e da esperança de dias melhores e o brasileiro aceita qualquer sacrifício para este sonho. Por isto é mais fácil mudar o País. A população sempre aceitou as demandas dos planos econômicos de imediato. Durante o governo Castello Branco todos queriam doar ouro para pagar a dívida externa. No Plano Cruzado, queriam ser fiscais. No plano Collor, ninguém gostou do confisco, mas não houve panelaço e tudo pelo bem na Nação. O problema não é o povo. Foram os pacotes econômicos que acabaram com a economia do País.

Gazeta Mercantil - Qual é o outro recurso brasileiro importante?

Não existem executivos e empresários como os brasileiros. Para poder sobreviver nesta economia tem que ser destemido, ter visão, criatividade, jogo-de-cintura e lutar para poder gerar emprego. O executivo japonês e norte-americano sabem tudo dentro daquela regra de jogo que não muda nunca. Se for alterada, eles ficam perdidos. Por isso os brasileiros no exterior, quando não tentam ser espertos demais, alcançam grande sucesso.

Gazeta Mercantil - Os executivos chineses estão bem preparados?

Temos de recordar que a China em 25 anos saiu da pobreza para a riqueza. Quando começou sua caminhada e o primeiro ministro Deng Xiaoping apresentou seu plano de prosperidade para a nação, uma geração inteira de chineses não tinha estudado. Na revolução cultural, professores e alunos foram enviados para o campo para purificação da mente socialista. Mas mais de 1 milhão de chineses já estudaram nos Estados Unidos. Centenas de milhares foram educados nas universidades européias. Por isto a Fundação Getúlio Vargas (FGV) está criando um MBA executivo em Shanghai, com duração de três semestres, em inglês, para preparar executivos para esta crescente parceria entre Brasil e China. Quando os chineses vão aos Estados Unidos e à Europa, há muitos executivos que conhecem os dois países. Quando vêm para o Brasil, não se encontra ninguém que tenha este tipo de conhecimento.

Gazeta Mercantil - Existe alguma estimativa quanto ao número de chineses que falam inglês?

É um percentual muito pequeno dentro de uma população de 1,37 bilhão de pessoas. Entre os que fazem negócios a porcentagem também é pequena. Os jovens chineses buscam cada vez mais estudar inglês. Os velhos chineses, que tomam decisões, ainda falam russo e alemão por conta da relação da China comunista com a Rússia e a ex-Alemanha Oriental.

Gazeta Mercantil - Como as descobertas da camada pré-sal podem mudar o perfil da economia brasileira?

Todo este dinheiro que já estamos gastando por conta não significa que teremos um país desenvolvido. Irã e Venezuela são exemplos de gigantescas receitas em petróleo em países subdesenvolvidos.

Gazeta Mercantil - A China explora petróleo. Qual o tamanho das reservas?

A China extrai duas vezes o petróleo que o Brasil produz e importa o dobro. Temos tecnologia, mas a melhor do mundo em águas profundas é a brasileira.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 6)(Marcello D'Angelo e Jaime Soares de Assis)



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