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Energia mantém tendência de alta

26/08/2008

Os preços da energia elétrica no Brasil subiram mais de 300% nos últimos anos e vão continuar em alta, segundo estimativas da agência de classificação de risco Moody's e da Tendências Consultoria. No mercado cativo, no qual o consumidor não pode escolher a distribuidora de quem receberá o insumo, a alta foi de 324% entre os anos de 1995 a 2007, ante um IGPM de 202% e um IPCA de 119%. No mercado livre, a alta é ainda maior. Desde a entrada em vigor do novo modelo de regulamentação do setor, em 2004, o preço da liquidação das diferenças (PLD), uma espécie de referência para os negócios, subiu mais de 400%. 

 

 

Até 2012, a estreita relação entre demanda e oferta é que deve puxar os preços para cima, aliado ao fato de que boa parte da energia nova contratada é procedente das usinas termelétricas e mais cara. Com a entrada em operação das usinas do Madeira, que já venderam uma energia mais barata ao sistema, as tarifas podem cair, mas o sistema sempre vai depender da chuva. 

 

 

Foi justamente a falta de chuva que levou os preços da energia no mercado livre às alturas no início de ano, com o PLD chegando a R$ 570. Foi esse o mesmo motivo que levou o governo a ligar as termelétricas, que também encarecem o preço da energia em função da conta Encargos de Serviço do Sistema (ESS), repassado ao consumidor. Para se ter uma idéia de quanto custam as termelétricas, no ano passado foram gerados R$ 24 milhões de ESS, e só na metade desse ano já são R$ 1,5 bilhão. Além de as usinas térmicas serem mais caras, o país fica exposto aos preços do petróleo, gás e carvão. 

 

 

Ligar as termelétricas foi uma medida de segurança, mas o consumidor paga um alto preço para se sentir tranqüilo. Assim como pagará também pela energia de reserva leiloada em meados de agosto pelo governo. Usinas movidas a bagaço de cana venderam 548 MW a ser fornecida integralmente a partir de 2012, novamente para dar segurança ao sistema. 

 

 

O analista da Moody's, José Soares, diz que a tendência do preço da energia é subir mesmo depois que as usinas do rio Madeira estejam em funcionamento. Ele entende que o país não tem mais grandes hidrelétricas a serem exploradas e as do Amazonas acabam sendo obras mais caras. Além disso, as novas alternativas de energia, como a do bagaço da cana e eólica, são mais caras. 

 

 

Os leilões de energia nova marcados para acontecer em setembro também ratificam essa tendência. Os preços de energia velha custavam R$ 64 entre dezembro de 2004 e abril de 2005, segundo relatório da Moody's, e saltaram para R$ 129 em outubro de 2007. Em 2008 o preço-teto ficou estabelecido em R$ 150 para o leilão de energia chamado A-3, cuja oferta vem basicamente das termelétricas e que será entregue a partir de 2011. 

 

 

Segundo relatório da Moody's, o cenário é agravado pela apertada relação entre demanda e oferta projetados entre 2008-2012. Somente em 2010 existe uma expectativa de sobra de energia, de até 1,2 mil MW no sistema, comparado com a demanda projetada pela Moody's. Em 2012, a expectativa é de um déficit de 724 MW. 

 

 

A Tendências Consultoria estima uma alta nos preços do insumo de 10% para os próximos dois anos, motivada pelos altos índices de inflação, maior despacho das usinas termelétricas, aumento dos preços dos combustíveis e desvalorização do real, que nos últimos anos chegou a contribuir para o barateamento da energia proveniente de Itaipu. Todos estes preços são repassados pelas distribuidoras com aval da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). 

 

 

A agência Moody's vê com bons olhos o que o Brasil está fazendo para dar segurança ao sistema, e na forma como a Aneel tem permitido que as distribuidoras repassem os custos. E por isso elevou a classificação de risco do ambiente regulatório. Mas a Moody's acredita que Aneel está muito suscetível a governos e somente em um ambiente de estresse, com inflação alta, é que o novo modelo pode ser testado. Mas Soares lembra o caso de 2006, quando o governo precisou ligar as termelétricas e a Petrobras não tinha gás para entregar, porque tinha compromissos com as distribuidoras de gás. Depois disso, a Petrobras estabeleceu um cronograma para entrega do insumo e irá inclusive importar gás natural para garantir a entrega para térmicas. 

 

 

A falta de gás ainda é um fator que pode preocupar, mas menos. "Não tem crise do apagão em vista", diz o professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Mas haverá impacto nas tarifas". 

 

 

Da energia nova leiloada em 2006 e que será leiloada agora em setembro para ser entregue em 2011, cerca de 70% virá das termelétricas. A capacidade de geração de energia entre 2008 e 2012 é de térmicas. Chega a 54,9%, ante 41,9% do potencial hidrelétrico. Para o professor Edmilson Moutinho, da Universidade de São Paulo, o país precisa rever seu sistema de geração. Ele acredita que as descobertas do pré-sal podem garantir grande oferta de gás. "O país deveria estar discutindo um destino para o gás", diz o professor. "Mas não está, então teremos que queimar o gás pelo menos com energia". 


Valor Econômico

São Paulo/SP

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26/08/2008

 

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