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Para Greenpeace, usina nuclear polui tanto quanto a termelétrica

24/07/2008

Dois relatórios da organização não-governamental Greenpeace jogam suspeita sobre os benefícios das usinas nucleares no combate ao aquecimento global e sobre a capacidade dos governos de honrar o cronograma previsto de construção dos reatores. Para a entidade ambientalista, é falsa a premissa de que as centrais atômicas não poluem. De acordo com seus cálculos, o nível de emissões indiretas de gases causadores do efeito estufa torna a geração nuclear quase tão poluente quanto as termelétricas movidas a gás natural. 

 

 

Para fazer esse cálculo, o Greenpeace levou em conta as emissões produzidas em todas as etapas de produção da energia nuclear - da extração do urânio ao transporte dos resíduos radioativos, passando pelas obras civis da usina em si e pela transformação do minério em combustível. Segundo a ONG, que diz ter usado números de fontes como a Agência Internacional de Energia Atômica e a Universidade de Sidney, o custo energético de toda a cadeia nuclear, incluindo a etapa de descomissionamento (desativação da usina), pode chegar a 400 gramas de gás carbônico por kilowatt-hora (kWh) produzido, considerando a exploração futura de minérios pobres em urânio. Na melhor das hipóteses, segundo o estudo, as emissões indiretas chegam a 150 gramas de CO2 por kWh. É um patamar bem acima de hidrelétricas. 

 

 

A tese do Greenpeace é de que não se pode olhar as vantagens da energia nuclear para atenuar as mudanças climáticas com base unicamente no produto final. Levando em conta toda a cadeia produtiva, a fonte mais poluente é o carvão, que emite de 800 a 1,3 mil gramas de CO2 por kWh. A emissão total da fonte hídrica varia de 20 a 300 gramas por kWh, enquanto a eólica, campeã de gastos, fica entre 10 e 50 gramas. 

 

 

O relatório sobre emissões indiretas foi concluído em novembro de 2007 e precede outro, de março de 2008, a respeito dos custos financeiros da energia nuclear. Uma análise de pesquisadores do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, a pedido do Greenpeace, contesta a viabilidade de que a tarifa de Angra 3 seja de R$ 138 por MWh, como anunciou o governo após a decisão de retomar as obras da usina. Na época, o governo justificou que esse valor estava equivalente ao da energia de outras fontes térmicas, em torno de R$ 140. De acordo com o relatório, a tarifa será de R$ 152 caso a taxa de retorno do investimento da Eletrobrás fique em 12% ao ano, "a mínima do mercado". "Com taxas de retorno de 13,5%, a tarifa de Angra 3 ultrapassaria os R$ 162 por MWh." 

 

 

Para o Greenpeace e a equipe da USP responsável pelo estudo, é pouco confiável o compromisso da Eletronuclear de concluir Angra 3 até agosto de 2014. "É possível fazer uma análise sobre a capacidade da Eletronuclear em atender o prazo de construção a partir do tempo de finalização de Angra 2. Foram necessários três anos e meio para concluir uma obra que já se encontrava com progresso estimado de 70%. No caso de Angra 3, os 70% restantes consumiriam pelo menos mais oito anos", diz o relatório. 

 

 

Segundo a ONG, análises do Conselho Mundial de Energia mostraram que o prazo médio de construção de reatores nucleares subiu de 66 meses, nos anos 70, para 116 meses, entre 1995 e 2000. Ou seja, a média internacional de atrasos costuma ficar em quatro anos além do cronograma mencionado nos projetos originais. Para o Greenpeace, "a construção das usinas Angra 1 e Angra 2 foi marcada por atrasos, orçamentos estourados e falta de transparência governamental, corroborando o desempenho do setor nuclear ao redor do mundo".


Valor Econômico

São Paulo/SP

Brasil

24/07/2008

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