Acesso Restrito

Verdade inconveniente: o petróleo é escasso e finito

22/07/2008

Nos últimos três meses, o congresso americano ouviu sete testemunhos sobre a especulação financeira nos mercados futuros de commodities. Os congressistas buscam determinar se a especulação excessiva é a causa das altas recentes nos preços de alimentos e energia. Apesar de não terem concluído os trabalhos, é certo que a regulação sobre esse mercado será ampliada. 

 

 

São os especuladores a causa da alta recente nos preços das commodities e, em particular, do petróleo? Uma bolha especulativa nesse mercado está se formando como muitos profissionais têm afirmado? O ponto de partida: nos últimos cinco anos, o preço do barril de petróleo subiu cerca de 380% e as posições especulativas no mercado futuro dobraram. 

 

 

Entre 2001 e 2007, o mundo viveu um dos períodos mais prósperos da história recente. O crescimento foi puxado pelas economias emergentes, cujo consumo de energia cresceu muito, principalmente na Ásia, onde a produção de petróleo é limitada e os países dependem das importações, especialmente do Oriente Médio e da África. No entanto, os produtores não investiram na exploração de petróleo, cujo custo por barril aumentou de US$ 5 em 2000 para quase US$ 20 nas bacias descobertas recentemente. 

 

 

Verifica-se que a variação da oferta não acompanhou a demanda por petróleo e as fortes pressões de preços ficaram evidentes a partir de 2007. Os dados da Administração de Informações sobre Energia mostram que, desde 2005, a oferta mundial de petróleo está estagnada, enquanto que a demanda global tem crescido em mais de 1% ao ano. Assim, o excesso de demanda pressiona os preços do produto. 

 

 

 

Especuladores apenas poderiam influenciar de forma contínua os preços do petróleo se estocassem o produto. Isso nos lembra o final da década de 70, quando o Irã reduziu sua produção de petróleo. Os impactos dessa decisão foram potencializados pelo pânico advindo da estocagem física de petróleo por consumidores e especuladores. Todavia, atualmente não há indícios de que o produto esteja sendo estocado. Pelo contrário, os estoques de petróleo nos países desenvolvidos têm se mantido relativamente estáveis desde 2005. Isso não condiz com a hipótese de bolha especulativa e mostra que são os fundamentos de mercado que estão impulsionando esse ajuste. 

 

 

Na outra ponta, especuladores podem criar incentivos para o acúmulo de estoques apenas se o custo de oportunidade de estocar o produto for menor do que a diferença entre o preço futuro e o preço à vista do produto. No caso do petróleo, o preço futuro tem ficado em geral abaixo do seu preço à vista (figura ao lado), o que não incentiva consumidores ou especuladores a estocar a commodity ou produtores a reduzir a produção. 

 

 

Se essa análise deixa claro que não são os especuladores que estão por trás dessa forte alta no preço do petróleo, por que os holofotes estão voltados para eles? Uma das hipóteses é o aumento no número de investidores e no volume de investimentos nos mercados futuros de petróleo, seja via contratos futuros ou de índices, como o CRB. Vale ressaltar que os preços de algumas commodities não inclusas em índices, como aço, arroz, carvão e minério de ferro, também aumentaram significativamente desde 2007. 

 

 

Afirmar que não há bolha especulativa de petróleo em formação não significa dizer que os preços da commodity não cairão eventualmente. Um ajuste da demanda, o qual ocorre de forma lenta e gradual, levaria a uma queda no preço do barril. 

 

 

A grande lição desse episódio é que há fatores fundamentais por trás da alta no preço de commodities. Muitas vezes, as atitudes e os interesses políticos se distanciam dos fatos reais, como no caso de culpar os especuladores por essas altas. Esse fato nos mostra a verdade inconveniente de que os recursos naturais são escassos e finitos e que o mecanismo de preços é a melhor forma de alocar tais recursos eficientemente. 

 

 

Mariam Dayoub é estrategista-chefe da Arsenal Investimentos 
E-mail mariam.dayoub@arsenal inv.com.br.  

 

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. 


Valor Econômico

São Paulo/SP

Investimentos

22/07/2008

    Somos associados

     

  • CIAB
  • epe
  • World Coal Association
  • Global CCS Institute

Rua Pascoal Meller, 73 - Bairro Universitário - CEP 88.805-380 - CP 362 - Criciúma - Santa Catarina
Tel. (48) 3431.8350/Fax: (48) 3431.8351