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Carvão, que vira petróleo, que vira...

25/06/2008

Especulação é como fumaça. Só existe quando há fogo. Ou, neste caso, quando há algum fundamento indicando que algo está errado na oferta ou na demanda de um determinado ativo. Parece tão óbvio que é difícil acreditar que altos representantes dos principais países produtores de petróleo passaram o fim de semana na Arábia Saudita culpando a especulação pela alta dos preços da commodity. Uma semana antes, um G-8 dividido decidiu contratar o Fundo Monetário Internacional (FMI) para descobrir os mistérios que rondam a disparada do petróleo e para separar os fatores reais e financeiros que impulsionam as cotações. O preço do petróleo tipo Brent saltou de US$ 69,14 por barril há um ano (contrato para agosto) para US$ 137 ontem - alta de 98,15% no período. 

 

 

Não tenho dúvida alguma de que há especulação - e muita. Mas basta dar uma olhadinha nos outros dois lados da equação - a oferta e a demanda - para entender o porquê do movimento. Na produção de petróleo cru, a capacidade ociosa mundial atingiu este ano cerca de 3%, a mais baixa em quase 20 anos. Por um lado, a demanda mundial cresce a uma taxa média de 1,8% ao ano desde 2003, em grande parte impulsionada pelo consumo de Índia e China. Por outro, a oferta caiu nos dois últimos anos. Lembro-me de uma viagem que fiz ao México há quatro anos e como a questão da crescente queda da produção da estatal Pemex incomodava os mexicanos. Pois bem, México e Noruega são dois dos países que reduziram sua oferta em 2007, segundo relatório da britânica BP. 

 

 

O problema é ainda mais complicado. Em recente entrevista, James Burkhard, da Cambridge Energy Research Associates (Cera), explicou que o tradicional raciocínio de que preços mais altos estimulariam maiores investimentos e que isso, no futuro, significaria aumento da produção, não se aplica desta vez. Primeiro, porque houve um aumento brutal dos custos de novos campos de petróleo - mais do que dobraram desde 2005. Essa alta se deve não apenas ao fato de que é preciso ir cada vez mais longe ou mais fundo para se encontrar petróleo, mas também ao aumento das pressões ambientais. A preocupação com o meio ambiente é muito bem-vinda, mas não se pode negar que ela tem um impacto importante nos custos. "Além disso, a indústria do petróleo perdeu muita gente qualificada quando o barril esteve cotado perto de US$ 15. Há uma escassez de mão-de-obra", afirma André Loes, economista e sócio da Fram Capital, que desenvolveu minucioso estudo sobre a alta das commodities, entre elas o petróleo. 

 

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Desta vez, não há um só substituto ao combustível

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As dificuldades para se investir em nova oferta adicional esbarram ainda em outra questão. Com a alta do petróleo, muitos governos aumentaram o chamado "state take" - receita que eles apropriam da atividade petrolífera. Foi dessa forma, por exemplo, que alguns dos fundos soberanos que existem por aí foram constituídos. É bom lembrar que, em grande parte dos países produtores, os governos são os donos das empresas petrolíferas. E quando jorra dinheiro - como está acontecendo agora, com o petróleo na casa dos US$ 140 o barril - perde-se o sentido de urgência. É por tudo isso que Burkhard, da Cera, diz que a equação do investimento não é tão simples desta vez. 

 

 

Do lado da demanda, a equação não é menos complexa. Durante décadas, o aumento da demanda vinha dos países desenvolvidos. Agora, não. Os países da China e do Oriente Médio já respondem por mais da metade do aumento do consumo nos últimos anos. Muitos países emergentes vêm subsidiando os combustíveis - o Brasil, entre eles. O subsídio pode ajudar a controlar a inflação, mas acaba por estimular o consumo. Um primeiro sinal de que os governos estão acordando foi dado na semana passada, quando a China aumentou os preços pela primeira vez em meses. Nos Estados Unidos, onde não há subsídio, especialistas dizem que a demanda pela gasolina atingiu o seu pico e que deve cair a partir de agora porque os altos preços têm levado os consumidores a fazer opções de longo prazo que reduzirão o consumo, como a aquisição de veículos com maior eficiência no gasto de combustível. 

 

 

Um dos setores em que a busca de alternativas ao petróleo é mais visível é o de aviação. Nesta semana, a Japan Airlines anunciou que fará um vôo teste até março do próximo ano com um Boeing 747 parcialmente alimentado com biocombustíveis feitos à base de não-alimentos. Richard Branson, da Virgin Atlantic Airways, já faz vôos usando biocombustíveis e agora diz estar interessado em investir em etanol no Brasil - para ele, a cana não traz problemas ao setor de alimentos. David Neeleman, que fundou a Jet Blue e está lançando no Brasil a companhia aérea Azul, é outro que defende os biocombustíveis como alternativa e tem interesse no etanol. 

 

 

"Provavelmente, estamos vivendo hoje uma mudança da mesma magnitude observada há pouco mais de cem anos, quando o carvão cedeu espaço para o petróleo", diz André Loes, da Fram Capital. Com base em relatórios especializados, ele acredita que a diferença, desta vez, é que não haverá um único substituto ao combustível. "O petróleo, no longo prazo, pode vir a deixar de ser dominante, dando espaço para várias outras tecnologias", afirma. 

 

 

Em seu estudo sobre as commodities, o economista também arrisca dizer que a alta do petróleo pode estar contribuindo para a elevação dos preços dos metais. Loes lembra que a China, por exemplo, vive um forte processo de urbanização, o que amplia o consumo per capita de embalagens. "No passado, o metal foi em parte substituído pelo plástico, mas, desta vez, a alta da nafta é um limitador", explica. Em seu relatório, o economista comparou os preços das commodities relacionadas à alimentação com os metais e o petróleo. Deflacionados pelo índice de inflação americana (CPI), os preços do petróleo estão muito próximos do pico observado entre o fim da década de 70 e o início dos anos 80. Os metais estão a caminho do recorde registrado no início dos anos 70. Já os alimentos seguem abaixo da média do período de 1971-2008. Quanto disso é especulação, o FMI vai dizer. Pelo menos em relação ao petróleo. 

 

Raquel Balarin é editora especial em São Paulo

 

raquel.balarin@valor.com.br


Valor Econômico

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25/06/2008

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