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Reinventando a energia

28/04/2008

Por Jeffrey D. Sachs*

A economia mundial está sendo golpeada por preços de energia acentuadamente mais altos. Enquanto alguns poucos países exportadores de energia no Oriente Médio e outros lugares colhem lucros enormes, o resto do mundo sofre: o preço do petróleo superou os US$ 110 o barril e o de carvão dobrou. 

 

 

Sem energia farta e a custo baixo, todos os aspectos da economia global são ameaçados. Por exemplo, os preços dos alimentos estão aumentando em paralelo à disparada nos preços do petróleo, em parte devido aos crescentes custos de produção, mas também porque a terra agrícola nos Estados Unidos e demais lugares está sendo convertida de produção de alimentos para a produção de biocombustível. 

 

 

Não há soluções fáceis para os preços do petróleo. Os preços mais altos refletem condições básicas de oferta e demanda. A economia mundial, especialmente China, Índia e demais lugares na Ásia, tem crescido velozmente, provocando um aumento pronunciado na demanda mundial por energia, especialmente para a eletricidade e os transportes. Mesmo assim, o abastecimento global de petróleo, gás natural e carvão não consegue manter o ritmo facilmente, mesmo com novas descobertas. Além disso, em muitos lugares o fornecimento de petróleo está declinando em meio ao esgotamento dos antigos campos petrolíferos. 

 

 

O fornecimento do carvão está ligeiramente mais abundante e pode ser transformado em combustíveis líquidos para o setor de transportes. O carvão, porém, é um substituto inadequado, em parte devido ao suprimento limitado e em parte porque emite grandes quantidades de dióxido de carbono por unidade de energia e, portanto, é uma fonte perigosa de mudança climática produzida pelo homem. 

 

 

Para que os países em desenvolvimento possam continuar desfrutando de um crescimento econômico veloz, e para que os países ricos consigam evitar uma recessão provocada, será necessário desenvolver novas tecnologias de energia. Três objetivos devem ser visados: alternativas de baixo custo a combustíveis fósseis, maior eficácia energética e redução das emissões de dióxido de carbono. 

 

 

A tecnologia mais promissora no longo prazo é a energia solar. A radiação solar total que atinge o planeta é cerca de mil vezes superior ao uso de energia comercial do mundo. Isso significa que mesmo uma pequena parte da superfície terrestre - especialmente nas regiões desérticas, que recebem maciça radiação solar - pode oferecer grandes quantidades de eletricidade para grande parte do resto do mundo. 

 

 

 

O abastecimento global de petróleo, gás natural e carvão não consegue manter o ritmo facilmente, mesmo com novas descobertas

 

 

Por exemplo, usinas elétricas solares no deserto do Mojave, na América, podem abastecer mais de metade das necessidades de eletricidade do país. Usinas solares no Norte da África poderiam fornecer energia à Europa Ocidental. Além disso, usinas solares no Sahel da África, ao sul do vasto deserto do Saara, poderia suprir energia a grande parte da África Ocidental, Oriental e Central. 

 

 

Talvez o acontecimento isolado mais promissor em termos de eficácia energética seja "a tecnologia híbrida interativa" para automóveis, que poderá triplicar a eficácia do combustível de novos carros no espaço de uma década. A idéia é que os automóveis funcionariam principalmente à base de baterias recarregadas a cada noite na rede elétrica, com um motor híbrido a gasolina como reforço para a bateria. A General Motors poderá ter uma versão pioneira até 2010. 

 

 

A mais importante tecnologia para o uso ambientalmente seguro do carvão é a captura e armazenagem geológica do dióxido de carbono a partir de termelétricas movidas a carvão. Essa "captura e seqüestro de carvão", ou CCS [na sigla em inglês] é urgentemente necessária nos principais países consumidores do carvão, especialmente China, Índia, Austrália e os EUA. As principais tecnologias CCS já foram desenvolvidas; é chegada a hora de se sair dos projetos de engenharia para a demonstração de usinas elétricas reais. 

 

 

Apesar dessas tecnologias promissoras, os governos deveriam investir no conhecimento e nos custos elevados dos testes no estágio inicial. Sem contar, pelo menos parcialmente, com o financiamento público, a absorção dessas novas tecnologias será lenta e desigual. De fato, a maioria das principais tecnologias que hoje consideramos como coisa corriqueira, como aviões, computadores, internet e novos medicamentos, para citar apenas alguns, receberam financiamento público crucial nos estágios iniciais de desenvolvimento e implantação. 

 

 

É chocante, e preocupante, que o financiamento público continue escasso, já que o sucesso dessas tecnologias poderia reverter literalmente em trilhões de dólares de produção econômica. Por exemplo, segundo as informações mais recentes veiculadas pela Agência Internacional de Energia, em 2006 o governo dos EUA investiu escassos US$ 3 bilhões anuais em pesquisa e desenvolvimento de energia. Em dólares ajustados para a inflação, isso representou uma queda de praticamente 40% desde o começo da década de 1980 e hoje equivale ao que os EUA gastam com suas forças armadas em apenas 1,5 dias. 

 

 

A situação é ainda mais desanimadora quando nos detemos nos detalhes. A provisão de recursos do governo dos EUA para tecnologias de energia renovável (solar, eólica, geotérmica, oceânica e bioenergética) somaram magros US$ 239 milhões, ou apenas três horas de gastos com Defesa. Os gastos com seqüestro e captura de carbono foram de meros US$ 67 milhões, enquanto o gasto para eficácia energética de todos os tipos (construções, transporte e indústria) foi de US$ 322 milhões. 

 

 

É claro, o desenvolvimento de novas tecnologias de energia não é responsabilidade exclusiva da América. A cooperação global em torno das tecnologias de energia é necessária, tanto para aumentar os estoques como para assegurar que o uso de energia seja ambientalmente seguro, especialmente para impedir a mudança climática produzida pelo homem a partir do uso de combustíveis fósseis. Isso seria não só boa prática econômica como também boa prática política, pois poderia unir o mundo em torno do nosso interesse comum, em vez de dividi-lo numa disputa amarga em torno de reservas decrescentes de petróleo, gás e carvão. 

 

 

*Jeffrey Sachs é livre-docente de Economia e diretor do Instituto Terra na Universidade Columbia. É também assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio.© Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org 


Valor Econômico

São Paulo/SP

Opinião

28/04/2008

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