Acesso Restrito

Menos emoção e mais razão

10/04/2008

* Claudio Haddad

 

O debate sobre o aquecimento global e seu impacto na vida humana tem sido dominado por cientistas, engenheiros e políticos, com muito tecnicismo, emoção e pouca racionalidade econômica. No caso do Brasil, que precisa crescer para melhorar o padrão de vida e o bem-estar de sua população, deve-se tomar cuidado com previsões apocalípticas, que desconsiderem custos alternativos e prescrevam medidas radicais prejudiciais ao crescimento. 

Desde a revolução industrial, a humanidade tem passado por fases de extremo pessimismo quanto à exaustão de recursos naturais e seu impacto no desenvolvimento. Em meados do século XIX, temia-se o iminente esgotamento das minas de carvão, como também o desaparecimento das baleias, cujo óleo era usado em iluminação residencial, o que causaria graves prejuízos à economia. Já em 1972, as previsões do Clube de Roma indicavam a exaustão, até o fim do século, da maioria dos recursos minerais, principalmente petróleo que, em conjunto com a também temida explosão populacional, traria conseqüências funestas para a humanidade. 

Tais previsões não se verificaram. Os seres humanos não são irracionais, inertes e passivos. Eles reagem a incentivos. Novas minas de carvão foram descobertas e o óleo de baleia foi substituído com vantagem, ao fim do século XIX, pelos novos combustíveis fósseis, querosene e gás natural. O alto preço do petróleo imposto pela Opep induziu sua substituição por fontes alternativas e a expansão de sua exploração. A intensidade de uso de petróleo no PIB mundial de hoje é menos da metade do que era em 1970, explicando por que os altos preços a partir de 2003, que atingiram nível recorde em termos reais, tenham trazido poucos transtornos à economia global. 

 

É preciso cuidado com previsões apocalípticas

 

Com o progresso e o crescimento de renda per capita, mudando hábitos e aumentando o custo de manter uma família dentro de novos padrões mínimos desejados, a taxa de natalidade caiu, o Brasil sendo um caso típico. Com a população do globo em torno de 6,5 bilhões de habitantes, alega-se que há gente demais. Entretanto, toda ela caberia em três Estados americanos - Texas, Arizona e Novo México - com cada habitante tendo mais de 200 m2 de terra à sua disposição, mais do dobro do que dispõem os habitantes de Nova York.  Atualmente, as previsões apocalípticas centram-se no aquecimento global e em seu impacto na vida humana. O filme "Uma Verdade Inconveniente" faz previsões dramáticas para as próximas décadas, caso não haja controle da emissão de CO2 na atmosfera. Cidades ficariam submersas, milhões morreriam de calor, de malária e de outras doenças tropicais, milhares de espécies desapareceriam e assim por diante. A recomendação seria a obediência imediata ao Protocolo de Kyoto, que limita a emissão de CO2, em 2012, a 5,2% do nível abaixo do vigente em 1990, redução esta sendo feita exclusivamente pelos países desenvolvidos. 

Parece ser consenso, comprovado pela ciência e pela evidência empírica, que a temperatura vem de fato subindo no mundo. Também parece ser consenso que, por trás deste fenômeno, estão tanto movimentos cíclicos, independentes da ação do homem, quanto o impacto da atividade econômica através do efeito estufa, provocado por maior liberação de gases de carbono na atmosfera. Estima-se que, mantida a tendência atual, a temperatura média na Terra aumentaria 2,6 graus Celsius até 2100. Este aumento certamente traria custos e problemas, mas também benefícios. Seria mais difícil esquiar nos Alpes, mas mais fácil praticar horticultura na Sibéria. A discussão puramente científica fica capenga, quando não se introduz uma estimativa de valor do que se perde, do que se ganha e das alternativas de ação. 

O economista Bjorn Lomborg argumenta que, a um custo estimado de US$ 180 bilhões por ano, o Protocolo de Kyoto não é a forma mais inteligente de lidar com o aquecimento global. Medidas pontuais voltadas aos problemas dele derivados seriam mais baratas e eficientes, principalmente levando-se em conta que o custo atual de se cortar uma tonelada de CO2 , estimado em US$ 20, seria muito superior ao benefício, calculado em US$ 2. Além disso, como o processo de aquecimento é contínuo, assim como demonstrado no passado, a capacidade de reação do ser humano tem de ser levada em conta. Diques contra inundação podem ser construídos, alternativas energéticas aos combustíveis fósseis devem se tornar viáveis, a malária pode ser combatida, novas vacinas descobertas e os ursos polares salvos, principalmente contando com os recursos adicionais derivados do progresso. Isso tende a ser muito mais efetivo do que a simples prescrição de congelar a emissão de CO2 e, com isso, o crescimento. 

No Brasil, a tendência da mídia e da opinião pública tem sido a de tomar como verdadeiras as previsões apocalípticas e considerar como heresia opiniões em contrário. Entretanto, a realidade é bem diferente. As leis ambientais são muito rígidas, mas continua-se a queimar a floresta amazônica e a jogar esgoto in natura no rio Tietê com o conhecimento e omissão das autoridades. Construir uma nova barragem para aproveitar o potencial hidrelétrico do país, ou uma nova estrada para escoar a produção agrícola de forma mais eficiente e barata, é uma tarefa hercúlea e sujeita a toda sorte de interrupções e custos, facilitados pela rígida legislação ambiental e pelo ambiente jurídico do país. Enquanto se sonha com alternativas energéticas mais caras e limitadas, como a solar e a eólica, pouco acaba sendo feito e fica-se para trás. 

Na Inglaterra vitoriana, assim como nos Estados Unidos do século XX, os valores da sociedade priorizavam progresso. Essa mesma mentalidade se verifica na China de hoje. O Brasil tem vocação para o progresso, evidenciado no símbolo pátrio. Para crescer, os países interferem e alteram o meio ambiente e o Brasil terá de continuar a fazê-lo. É mais fácil cuidar do meio ambiente sendo rico do que pobre. Que tal usar mais a razão e o bom senso e menos dogmas e emoção?

 

*Claudio Haddad é diretor-presidente do Ibmec São Paulo e presidente do Conselho da Veris Educacional S.A. Escreve, quinzenalmente, às quintas-feiras.


Valor Econômico

São Paulo/SP

Brasil

10/04/2008

    Somos associados

     

  • CIAB
  • epe
  • World Coal Association
  • Global CCS Institute

Rua Pascoal Meller, 73 - Bairro Universitário - CEP 88.805-380 - CP 362 - Criciúma - Santa Catarina
Tel. (48) 3431.8350/Fax: (48) 3431.8351