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É preciso mudar a matriz elétrica brasileira

07/04/2008

A recente ameaça de um novo racionamento de energia elétrica com reflexos sobre o mercado de gás natural mostrou a necessidade de diversificação das fontes da geração do sistema elétrico brasileiro. Em 2006, quase 92% da geração de energia e 84% da capacidade instalada no Brasil proveio de recursos hídricos. O país ora depende de São Pedro para manter hidrelétricas funcionando, ora precisa racionar o suprimento de gás natural aos consumidores para acionar as termelétricas. Continuar fazendo mais do mesmo já não basta. Essa questão não foi enfrentada pelo governo FHC e tampouco vem sendo pelo governo Lula. 

A diversificação da matriz elétrica brasileira deve ser empreendida com muita cautela, evitando-se adotar modelos de países desenvolvidos que apresentam matrizes energéticas com características bastante distintas da nossa. Ao contrário do que ocorre nesses países, a capacidade de geração brasileira precisa crescer a passos monumentais. Enquanto o nosso consumo de energia elétrica deve aumentar mais do que 5% ao ano, a taxa européia é da ordem de 2%. Esse baixo ritmo de crescimento possibilita aos europeus construírem usinas solares e eólicas para substituir usinas termelétricas e nucleares cuja operação aproxima-se do final da vida útil. Em muitos casos, a retirada dessas usinas tem sido acordada pelos países da Comunidade Econômica Européia, pois devido à geografia do continente, a poluição das termelétricas ou o risco de acidentes nucleares são problemas que envolvem todos os países e não apenas os países onde se situam estas usinas. Além disso, os programas de energia renovável nos países desenvolvidos têm por detrás grandes volumes de subsídios ou a obrigatoriedade de compra de energia destas fontes por parte dos distribuidores. Em ambos os casos, isso tem levado a aumentos significativos nas tarifas pagas pelos consumidores ou nos impostos pagos pela sociedade. 

Apesar de investir fortemente em programas de energias alternativas, os países europeus, se comparados ao Brasil, ainda estão engatinhando no uso de fontes renováveis. Na Alemanha, país sempre citado como exemplo do uso de fontes renováveis, apenas 10% da energia elétrica é produzida por estas fontes, aí incluídas as hidrelétricas. Enquanto isso, no Brasil, a as usinas hidroelétricas e a bagaço de cana, este último ainda subutilizado, produziram mais de 90% da eletricidade gerada no país sem usufruírem de qualquer subsídio. 

A diversificação do parque gerador brasileiro passa por uma participação maior de usinas termelétricas, não a óleo combustível e diesel, mas a bagaço de cana, carvão mineral e nuclear. A geração a bagaço de cana começa a se tornar realidade no país, a partir do momento em que o governo passou a compreender as especificidades do setor sucroalcooleiro. Estima-se que, com o aproveitamento eficiente do bagaço na geração de energia elétrica, o setor sucroalcooleiro apresenta um potencial de 9 mil MW. 

 

Enquanto nosso consumo de energia elétrica deve aumentar mais do que 5% ao ano, a taxa européia é da ordem de 2%

 

Mas é no uso da geração a carvão e nuclear que o país precisa recuperar o tempo perdido. Estas usinas têm como grande vantagem operarem na base da curva de carga do sistema elétrico, assim como as hidrelétricas. A tecnologia das usinas a carvão sofreu grandes avanços desde os anos 70, quando o seu uso na geração de energia cresceu significativamente em substituição aos derivados do petróleo. A associação da geração a carvão à emissão de fuligem, à chuva ácida e aos danos à saúde é hoje mais mito do que realidade. As usinas atuais, com caldeiras convencionais ou sistemas de leito fluidizado, empregam tecnologias que filtram os gases de exaustão, eliminam substancialmente o enxofre dos efluentes e minimizam a formação e a emissão de óxidos de nitrogênio. Com isso, o seu nível de emissão é comparável ao das termelétricas a gás natural. As reservas de carvão brasileiras totalizam 27 milhões de toneladas, das quais 6,5 milhões de toneladas seriam hoje lavráveis. Com esta reserva, seria possível instalar 25 mil MW de geração operando durante 30 anos. Outra grande vantagem do carvão é que, ao contrário do petróleo e do gás natural, as reservas mundiais encontram-se mais dispersas geograficamente, com nenhum país possuindo mais do que 30%, e em regiões onde há um baixo risco de tensão geopolítica. A questão da emissão de gás carbônico não deve ser vista como um impedimento ao uso da geração a carvão pelo Brasil. O setor energético do país, ao utilizar a hidro e a bioeletricidade, o etanol e o biodiesel, contribui pouco para o aquecimento global em comparação com outros países. 

A aceitação da energia nuclear é crescente no mundo, possuindo entre seus adeptos ambientalistas que vêem na tecnologia a única forma de minimizar as emissões de gás carbônico na produção de eletricidade e os seus impactos sobre o clima da Terra. O desenvolvimento de reatores inerentemente seguros minimiza o risco de acidentes como os que ocorreram no passado. Apesar de ter prospectado apenas 30% do seu território, o Brasil tem a sexta maior reserva de urânio do mundo, de 310 mil toneladas, o suficiente para gerar 35 mil MW durante quatro décadas. Para que o país aumente a suas reservas do minério, é necessária uma política para o setor nuclear que contemple a flexibilização do monopólio do Estado na exploração do urânio. Com o incremento da produção de urânio e o domínio do processo de enriquecimento, o Brasil passaria a fazer parte de um seleto grupo de países exportadores de combustível nuclear. 

O fantasma da crise de suprimento de energia elétrica ocorrida em 2001 e dos eventos que levaram às restrições recentes no suprimento de gás natural permanecerão pairando sobre o país a cada período de estiagem, caso a matriz elétrica brasileira mantenha seu baixo grau de diversificação. Apesar de ser preciso criar condições para elevar a participação das energias eólica e solar na nossa matriz, não podemos abrir mão de outras tecnologias que hoje estão disponíveis a custos compatíveis com o nível de renda do consumidor brasileiro de energia elétrica. Sem uma participação significativa da geração termelétrica a carvão mineral e nuclear teremos que orar cada vez mais fervorosamente para São Pedro ou nos aprimorarmos na dança da chuva. 


Adriano Pires e Rafael Schechtman são diretores do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE).


Valor Econômico

São Paulo/SP

Opinião

07/04/2008

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