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Altas no mercado externo devem afetar custos no curto prazo

28/03/2008

A cada mês, o quadro de pressão inflacionária mostra-se mais complicado que o esperado por analistas no fim do ano passado. As preocupações residem não apenas no recente repasse de preços internacionais para o mercado interno, mas nos reajustes que ainda não ocorreram e devem atuar como fator de pressão inflacionária no segundo trimestre do ano. A perspectiva de que exportadores de outros países reajustarão mais os preços para repararem perdas causadas pela desvalorização do dólar - enquanto um quadro internacional recessivo ainda não se forma e a demanda segue aquecida - potencializa as preocupações. 

No cenário atual, a valorização do real frente ao dólar promete ser bem mais modesta neste ano. Em 2007, de acordo com o relatório do Banco Central, a variação de 15,26% na paridade entre as moedas contribuiu para reduzir o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 1,1 ponto percentual. Nos 12 meses encerrados em fevereiro de 2007, os preços industriais acumularam alta de 2,48%; o câmbio se desvalorizou 2,94% no mesmo intervalo. Nos 12 meses seguintes, no entanto, a desvalorização cambial foi de 17,16% e, ainda assim, os preços industriais subiram 6,2% no período. "Os preços das commodities internacionais subiram de uma tal forma que, por maior que tenha sido a queda do dólar, não foi suficiente para anular o efeito dos reajustes já feitos", avalia Fábio Silveira, sócio da RC Consultores. 

De acordo com cálculo da RC, o índice CRB (cesta das 24 commodities mais negociadas no mercado internacional) acumula alta de 25% entre janeiro e março. Silveira observa que as variações nos preços de produtos agrícolas são repassadas ao mercado interno rapidamente, mas no caso de outros insumos, como combustíveis e produtos da metalurgia e siderurgia, esse repasse demora até três meses para ocorrer, devido aos prazos de encomenda, entre outros fatores. "O que preocupa é que boa parte das valorizações que ocorreram no mercado externo ainda não chegaram no IPA [Índice de Preços por Atacado]. Os aumentos vistos no IPA até agora são só a ponta do iceberg", diz Silveira. 

O economista estima que alguns produtos sofrerão reajustes no país nas próximas semanas, como combustíveis e produtos da mineração. No mercado internacional, entre os insumos que mais valorizaram neste primeiro trimestre estão gasolina (24%), óleo diesel (25%), alumínio (45%), estanho (20%) e bobina a frio (35%). No Brasil, esses itens fazem parte da cesta de metalurgia básica do IPA, que ajuda a compor o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M). No ano, a cesta de metalurgia acumula alta de 3,28%. O preço do ferro-gusa subiu 25,54% no Brasil - longe dos reajustes acima de 60% no exterior. Os preços do eteno, um insumo do setor petroquímico, subiram 9,95% no ano. 

Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda que os itens que se valorizaram no mercado internacional serão reajustados no país no segundo trimestre, entre eles, produtos siderúrgicos, químicos e celulose. Um fator que preocupa, segundo ele, é a elevação do IPA. De acordo com relatório do Banco Central, em 12 meses encerrados em fevereiro, o IPA acumulava alta de 6,2%, contra 4,42% no ano fechado de 2007. "As taxas deste ano estão próximas a 1,5% ao mês, o que em um ano, se forem mantidas nesse patamar, acumularão uma alta de quase 20%. É um ponto que deve ser monitorado", diz Quadros. 

O economista observa que, entre os componentes do IPA, o grupo de máquinas e equipamentos tem resistido ao reajuste de preços. Em 12 meses, o item acumula variação de 1,22% e, no ano, alta de 0,38%. A variação pequena, diz Quadros, é reflexo do avanço das importações desses itens a preços mais baixos que os de produtos nacionais, embora tenha havido pequenos reajustes em janeiro e fevereiro. "Por enquanto, esse setor parece estar livre de pressão inflacionária", afirma. 

Para Luís Fernando Azevedo, economista da Rosenberg & Associados, um dos fatores de preocupação é a valorização nos preços internacionais do petróleo, que devem forçar a Petrobras a reajustar os preços de gasolina e diesel no país neste ano. "O nível de atividade econômica no país ainda está bastante aquecido e esse seria o melhor momento para reajustar preços. Quando a crise internacional se configurar, será muito difícil haver repasses", avalia. Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, economista-chefe da SLW Asset Management observa que o setor siderúrgico já estuda novo reajuste de 10% nos preços praticados no mercado interno e, se concretizado, pode levar outros setores da cadeia a avaliarem a realização de repasses. "O minério de ferro é 30% do custo do aço. O carvão subiu mais de 100% em um ano e em algum momento esse aumento de custo será repassado ao restante da cadeia."

Raphael Castro, economista da LCA Consultores, também estima pressão no IPA ao longo do primeiro semestre, com possibilidade de alta também no varejo. "No varejo a magnitude dos repasses foi pequena porque os importados estavam com preços mais competitivos. Existe uma inflação de custo e com a demanda aquecida, existe, sim, um risco de que a inflação fique acima da meta no primeiro semestre."


Valor Econômico

São Paulo/SP

Brasil

28/03/2008 

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