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Moçambique será a prova de fogo para a Camargo Corrêa

24/03/2008

Nos últimos dois meses, os executivos da divisão internacional da Construtora Camargo Corrêa têm tido pouco tempo para pensar em outra coisa que não Moçambique. Nesta pobre ex-colônia portuguesa banhada pelas águas do Oceano Índico e devastada pela guerra civil das últimas décadas reside a maior aposta da ainda recente expansão externa da Camargo: o projeto de construção da usina hidrelétrica Mphanda Nkuma. 

 

 

A quase obsessão dos executivos do grupo brasileiro com a hidrelétrica de Moçambique, afirmam pessoas, não está ligada à sua capacidade de gerar 1,5 mil megawatts, aos desafios de construir uma grande obra em uma região isolada de um pais africano e nem mesmo aos US$ 3,2 bilhões que serão necessários para a execução da obra, valor três vezes superior a toda a carteira de contratos internacionais da companhia. 

 

 

Toda a expectativa em torno de Mphanda Nkuma se explica pelo tipo de contrato que o grupo Camargo Corrêa firmou com o governo moçambicano. Além de finalizar o projeto, executar a obra e, possivelmente, participar da operação, caberá à construtora brasileira convencer empresas, governos e investidores a desembolsar mais de US$ 3 bilhões na construção de uma das maiores usinas hidrelétricas do continente africano, tão marcado por instabilidades políticas repentinas, como ocorreu recentemente no vizinho Quênia. "Essa será nossa prova de fogo. Se concluirmos esse processo como esperamos, a Camargo Corrêa entrará em um novo patamar no cenário internacional", diz Kalil Cury, diretor de desenvolvimento de negócios da área internacional da construtora. 

 

 

Além das dificuldades intrínsecas a um projeto dessas dimensões, a Camargo também tem o tempo contra si. Pelo acordo firmado com o governo de Moçambique, a companhia tem que estar com toda a operação formatada até julho do ano que vem, quando deverá, também, iniciar as obras. A empresa está na fase final de contratação de um banco internacional para coordenar a operação. 

 

 

Mesmo sem este coordenador definido, a Camargo já começa a sondar parceiros. Pretende ter como sócio estratégico na empreitada uma grande operadora elétrica. "Já atuamos na área com a CPFL [distribuidora e geradora elétrica na qual o grupo é um dos acionistas controladores], e temos trânsito com as grandes empresas do setor no mundo", diz Kalil, apontando como exemplos a belga Suez e a americana AES, que têm operações semelhantes em Moçambique com usinas termelétricas a gás e carvão. 

 

 

Além das estrangeiras, a Camargo Corrêa tem namorado a Eletrobrás que, com as mudanças legais recentes, poderia investir em empreendimentos no exterior. Informalmente, a companhia conversou com a estatal. O ministro de Minas e Energia de Moçambique esteve por duas vezes na sede da Eletrobrás para oficialmente discutir projetos de cooperação. "Não temos nada formalizado, mas é claro que adoraríamos ter uma empresa como a Eletrobrás nesse projeto", afirma Kalil. 

 

 

Nesta segunda-feira o executivo viaja para Moçambique para discutir com os representantes do governo local as regras para definição das tarifas pelas quais a energia será comercializada. Boa parte do que será produzido em Mphanda Nkuma não ficará em Moçambique, país em que menos de 10% da população têm acesso à energia elétrica. Uma parcela considerável da produção da usina seguirá diretamente para África do Sul, país que depende profundamente do potencial energético do país vizinho. 

 

 

"Nosso maior consumidor será a África do Sul e queremos ter as regras de definição das tarifas o mais breve possível para iniciarmos as negociações de venda a longo prazo dessa energia que será gerada ali", diz Kalil. Por conta da necessidade crescente da África do Sul por energia, o executivo acredita que boa parte da operação financeira possa ser feita junto a investidores sul-africanos. 

 

 

Se tudo correr como a Camargo Corrêa vem planejando, a experiência moçambicana será seu cartão de visitas no mercado internacional. A companhia entende que a prestação de serviços no setor de infra-estrutura tem se tornado cada vez mais uma commodity. As diferenças tecnológicas entre as grandes empresas do setor vem se estreitando na mesma proporção com que as companhias vão se tornando players globais. "Esse caminho da simples prestação de serviços não vai nos levar muito longe, para crescermos no mercado global precisamos de uma atuação mais ampla e cada vez mais o componente financeiro dos projetos terá um espaço maior nesse processo", diz o executivo. 

 

 

Essa será a primeira grande experiência da empresa nesse novo modelo em que fica responsável pelo projeto, pela construção e pela engenharia financeira. Por isso Mphanda Nkuma tem recebido uma atenção quase obsessiva da companhia. Se conseguir entregar uma usina de 1,5 mil MW a Moçambique sem que o país precise abrir seus tímidos cofres e ainda garantir o retorno esperado pelos investidores, sem dúvida a Camargo Corrêa se coloca em um novo patamar no competitivo mercado de infra-estrutura internacional. Mas se falhar terá que recuar alguns anos em seu ambicioso projeto de se tornar uma companhia verdadeiramente global. 


Valor Econômico
São Paulo/SP
Empresas
24/03/2008

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