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Diante da ameaça de falta de água, dessalinização volta a chamar atenção

12/03/2008

Num momento em que paira sobre o globo uma ameaça de escassez de água, esta remota cidade na costa leste da Austrália está dando uma nova importância à dessalinização - o árduo processo de remover o sal - da água do mar.

Aberta no fim de 2006, a usina de dessalinização de Perth, que custou US$ 360 milhões, absorve cerca de 190.000 litros de água do Oceano Índico por minuto. A usina passa a água por filtros especiais que separam o sal, gerando perto de 95.000 litros de água potável - o bastante para abastecer quase um quinto da demanda atual de Perth.

Durante décadas, críticos disseram que a dessalinização é um elefante branco que queima uma quantidade colossal de combustíveis, inclusive combustíveis sujos como o carvão. Tecnologicamente complexa, ela também é bem mais cara do que tirar a água de outras fontes. As poucas usinas grandes de dessalinização que chegaram a dar resultados foram construídas no Oriente Médio, que tinha petróleo - e dinheiro - para queimar.

 

A usina de Perth enfrenta diretamente as preocupações ambientais e financeiras. O problema das emissões poluentes é resolvido pela geração de energia eólica. Ao contar basicamente com uma energia renovável - uma tendência recente em dessalinização -, a usina solta menos gases do efeito estufa na atmosfera. E novos sistemas removem o sal mais eficientemente do que os processos anteriores, reduzindo os custos operacionais.

A despeito de contas de água mais caras para os consumidores, as autoridades daqui consideram o projeto tão bem-sucedido que planejam construir uma segunda usina de dessalinização, de US$ 875 milhões. Quando estiver funcionando, ela vai permitir que Perth tire do oceano até um terço da água que consome e reduza bem sua dependência de reservas alimentadas pela chuva.

Não faz muito tempo, a "dessalinização era uma coisa que você só fazia quando não tinha nenhuma outra escolha", diz Jim Gill, diretor-presidente da Water Corp., a empresa estatal de águas de Perth. Agora, "simplesmente não sobrou tanta escolha assim".

A incursão de Perth na dessalinização ocorre num momento crítico, quando a água desponta como o próximo desafio mundial em termos de recursos naturais. O consumo da água, como o do petróleo, está aumentando com o crescimento econômico na China, Índia e outros países. De acordo com o Instituto Internacional de Gestão de Águas, de Sri Lanka, cerca de um quinto da população mundial, ou mais de 1,2 bilhão de pessoas, já mora em áreas com oferta insuficiente.

Devido a alterações dos padrões de chuva atribuídas à mudança climática, muitas regiões estão recebendo até 10% menos chuvas do que costumavam. Há também uma corrida global para expansão da agricultura, o maior beberrão de água do planeta, para atender à crescente demanda por alimentos e fontes alternativas de energia.

Existem atualmente 75 projetos do gênero de grande porte em vários estágios de desenvolvimento pelo mundo afora. Várias cidades australianas estão construindo enormes usinas de dessalinização. A maior delas, perto de Melbourne, vai custar mais de US$ 2,5 bilhões. Instalações similares estão previstas na Espanha e na Índia. Londres está planejando uma usina de US$ 400 milhões no corredor do Rio Tâmisa. Nos Estados Unidos, há um projeto de US$ 300 milhões na Califórnia

No Brasil, há centenas de máquinas dessalinizadoras instaladas no Nordeste, mas são sistemas de pequeno porte. No Ceará, por exemplo, há 288 dessalinizadores, mas a grande maioria tem capacidade inferior a 2.000 litros por hora, segundo dados do website do Secretaria de Recursos Hídricos.

Ambientalistas temem que o impacto combinado das usinas dessalinizadoras de grande porte possa ser devastador, especialmente se forem movidas a energia gerada por carvão mineral. Grandes usinas de dessalinização queimam anualmente eletricidade suficiente para abastecer mais de 35.000 casas por ano.

Em junho passado, o WWF, uma organização ambiental internacional, divulgou um relatório que questiona o boom da dessalinização. Ele cita "um desvio significativo da atenção, políticas e fundos públicos". Mas funcionários do WWF reconhecem que pode haver um lugar ao sol para algumas usinas de dessalinização - desde que alguns critérios sejam observados. Primeiro, no entanto, o WWF defende que as cidades esgotem as outras opções, como a reciclagem de água. Se as usinas forem um dia necessárias, propõe que elas sejam construídas como a de Perth.

"Perth vai ser o modelo de dessalinização no mundo desenvolvido", diz Tom Pankratz, um consultor do setor em Houston.

 

 

Valor Econômico

São Paulo/SP

The Wall Street Journal Americas

12/03/2008

 

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