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Companhias aproveitam crise chilena para crescer

12/03/2008

 

 

 

A falta de energia no Chile ficou mais séria na semana passada, quando a presidente Michelle Bachelet anunciou que o país corre risco de enfrentar um racionamento ainda neste mês de março. Para o ano estima-se inflação mais alta, além de 4%, e uma redução na expansão do PIB, projetado em 4%. Mas há um grupo de empresas, entre elas, brasileiras, que aproveita a crise para faturar e crescer.

 

A General Electric Chile, subsidiária da maior empresa do mundo, prevê "um futuro fantástico" para seus negócios, disse seu presidente Hugo Silva ao Valor. No ano passado, Silva, chileno que trabalha na GE há 33 anos, conseguiu fechar quatro novos contratos de grande porte para fornecer equipamentos para usinas térmicas a serem tocadas pela sócias Endesa e Colbún, as maiores geradoras de eletricidade chilenas.

 

Esses negócios ajudaram a elevar o faturamento da GE Chile a US$ 258 milhões em 2007, um salto de 58%, ponto fora de curva em relação a anos anteriores - a média tem sido de 14% desde 1997. "Foi o melhor resultado da GE em toda a América Latina", afirmou o executivo. Se forem considerados os mercados de Peru, Equador e Bolívia, que respondem a Silva, o faturamento da GE chegou perto dos US$ 400 milhões.

 

A falta de energia no Chile foi agravada pela escassez de chuva, em 2007 e neste ano, e pelo corte no envio de gás da Argentina, que também enfrenta uma crise energética. O gasoduto que trazia da Argentina ao Chile 15,6 milhões de metros cúbicos por dia em janeiro de 2007, transportou apenas 1,2 milhão em janeiro deste ano. Além disso, uma das centrais geradoras chilenas está fora do sistema de distribuição integrado por seis meses, para manutenção.

 

O quadro levou a GE Chile a entrar no negócio de linhas de transmissão de energia. Comprou quatro, em sociedade com a espanhola Abergoa. O próximo passo, agora, é entrar com mais força no financiamento de projetos de energia. "Queremos financiar e para isso precisamos comprar bancos e financeiras no Brasil, no Chile e no Peru", diz Silva. Esse movimento já começou em outros países da região. Há dez dias a GE Money, o braço financeiro da multinacional, anunciou a aquisição de 39,3% do banco colombiano Colpatria, com a possibilidade de comprar mais 25% em 2012. Este banco soma-se a um outro na Costa Rica, o BAC San José, do qual a GE Money tem 49,99%. Este banco pertence ao sexto maior grupo financeiro da Costa Rica e opera em seis países da América Central.

 

No Chile, de fato, há uma série de projetos na área de energia à espera de financiamento. Segundo o embaixador do Chile no Brasil, Álvaro Díaz, os planos de investimentos em produção e distribuição somam US$ 17 bilhões se forem considerados os anos de 2007 a 2011. Um deles, que terá capacidade gerar 10 milhões de metros cúbicos de gás por dia, é tocado pela GNL Quintero, empresa formada pela inglesa BG (40% do capital), a espanhola Endesa e as chilenas Metrogas e Enap (com 20% cada uma). As sócias, até agora, já gastaram US$ 485 milhões na construção de duas unidades a 155 km a noroeste de Santiago, que transformarão o gás natural liquefeito trazido de navio pela BG em gás. A construção do complexo, que engloba porto de atracação, unidade regasificadora e tanques de estocagem, está a cargo da americana Chicago Bridge and Iron. O valor total do investimento das duas empresas é de US$ 940 milhões.

 

"É o único projeto de regasificação em terra do Hemisfério Sul", diz, animado, Antonio Bacigalupo, CEO da GNL Quintero, que tem recebido representantes de outros países, como Argentina e Uruguai, interessados em conhecer de perto a empreitada. O agravamento da crise no Chile acelerou os planos da GNL Quintero e a data de funcionamento foi antecipada em um ano, para julho de 2009. A compradora do gás será a GNL Chile, formada por Enap, Metrogas e Endesa. O contrato de fornecimento e compra foi assinado em maio do ano passado e tem duração de 21 anos.

 

Os termos dos contratos são confidenciais, mas Bacigalupo diz que o preço do gás seguirá indicadores tradicionais de mercado como o "henry hub". Inicialmente, a GNL Chile havia dito que compraria anualmente 1,7 milhão toneladas de gás, embora tivesse que pagar pelos 2,5 milhões (equivalente à capacidade máxima das duas unidades). Mas recentemente, os cálculos foram refeitos e os três sócios compradores aumentaram sua demanda para 2,5 milhões de toneladas - volume equivalente aos 10 milhões de metros cúbicos diários. Esta quantidade corresponde ao consumo máximo atual na zona central do Chile, a mais populosa, e a 40% da demanda por gás natural do país.

 

A Quintero entra, agora, numa nova etapa. "Estamos negociando o financiamento com bancos comerciais internacionais", disse Bacigalupo. O consórcio de bancos privados deverá ser anunciado em breve e cobrirá o valor total do investimento, de US$ 940 milhões.

 

A demanda por projetos de energia não ocorre apenas no Chile, mas em várias partes do mundo. Por isso, há falta de equipamentos e de mão de obra para tocar obras nesse campo, diz o coordenador regional da brasileira Construtora Queiroz Galvão, Roberto Abreu Aguiar. "Falta mão de obra técnica, falta engenheiro", diz o executivo, que chegou há pouco mais de um mês a Santiago com a família para comandar os negócios da Queiroz Galvão no Chile. "Viemos para ficar e vamos prospectar novos negócios". Entre as possibilidades, segundo Aguiar, estão a expansão do Metrô de Santiago, novas usinas hidrelétricas, estradas (em regime de concessão ao setor privado) e obras de infra-estrutura.

 

A Queiroz Galvão está há dois anos construindo um túnel de 18 km na Cordilheira dos Andes, a 130 km de Santiago. Esse túnel conduzirá a água necessária para fazer funcionar as turbinas de uma usina hidrelétrica a cargo da SN Power, da Noruega, e da Pacific Hydro, da Austrália. A usina está 65% construída e terá capacidade de gerar 177 MW a partir de 2009. O investimento estimado dé de US$ 176 milhões.

 

Outras duas brasileiras que estão aproveitando a necessidade do Chile em aumentar sua oferta de energia são Camargo Corrêa e a MPX Energia. Esta, controlada pelo empresário Eike Batista, busca sócios e compradores para uma usina térmica, a carvão, e um porto a serem construídos no litoral chileno, a 700 km ao norte de Santiago, onde Batista é dono de 240 mil hectares.

 

A idéia, diz o presidente da MPX Energia, Eduardo Karrer, é trazer carvão de navio para alimentar a usina e exportar minérios. O plano é gerar 700 MW em 2012 e 1400 MW em 2013. O investimento da primeira fase da usina é estimado em US$ 1,4 bilhão e o porto em US$ 300 milhões. O porto, a cargo da OMX, do mesmo grupo, poderá receber navios de até 200 mil toneladas.

 

A Camargo Corrêa acompanha de perto a evolução do projeto de construção de cinco hidrelétricas no sul do Chile, com investimentos estimados em US$ 3 bilhões.

 

O Ministério do Meio Ambiente ainda precisa dar o sinal verde para estas usinas, das sócias Endesa e Colbún, e que poderão ter turbinas da Voith Siemens do Brasil. Este projeto foi criticado por ambientalistas porque inundaria uma área de 9 mil hectares. Esta área foi reduzida para 5,9 mil hectares e a capacidade de geração subiu de 2.430 MW para 2.750 MW.


Valor Econômico

São Paulo/SP

Empresas

12/03/2008

 

 

 

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