Acesso Restrito

Otimismo na exportação esquece pressão cambial

05/03/2008

A balança comercial brasileira registrou em fevereiro o menor superávit mensal desde junho de 2002. O forte crescimento das importações impôs um saldo de apenas US$ 882 milhões. É preciso observar com atenção que na média diária esse saldo foi 71,2% menor que o de fevereiro do ano passado. Nesse critério, da média diária, as vendas externas brasileiras avançaram 19,2%, mas as importações dispararam subindo 56,4%. É possível também dizer que tais números não são preocupantes pois, enfim, o saldo soma US$ 1,82 bilhão, porque as exportações no ano alcançaram US$ 26,07 bilhões, enquanto as importações foram de US$ 24,25 bilhões. Nas duas pontas, nas vendas e nas compras externas tais números, no entanto, representam recordes absolutos para o mês de fevereiro.

O governo, por sua vez, emite sinais cada vez mais tranqüilizadores sobre esses resultados. Anteontem, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior decidiu aumentar a projeção de meta de exportações para este ano dos atuais US$ 172 bilhões para US$ 180 bilhões. Esse prognóstico significaria um aumento de 12% em relação ao total vendido em 2007, que atingiu US$ 160,4 bilhões. A alta foi projetada a partir de uma avaliação dos preços das commodities e de uma estimativa mais atualizada com o aumento da safra agrícola.

Dispensados os excessos, a análise da corrente de comércio, exportações mais importações, aponta que o Brasil parece ter decidido, por conta e risco próprio, praticar uma espécie de descolamento em relação às suas expectativas de comércio exterior, seja qual for o cenário da economia internacional no curto e médio prazo. Os técnicos do governo insistem em que as importações devem manter o ritmo de crescimento superior às exportações apenas em meados deste mês, porque a partir daí tem início o embarque da safra agrícola, principalmente soja. Por outro lado, o governo repete que as importações devem manter a espiral de alta devido à demanda interna, que começa no investimento em bens de capital puxadas pelas decisões da política cambial. Também, os técnicos repetem a explicação de que a política agressiva de exportações que buscam insumos mais baratos no mercado internacional pressiona as importações.

Os dados da realidade, porém, são um pouco diferentes dessa visão candidamente otimista. As compras externas de bens de consumo dispararam em fevereiro: alta de 42,3%. Só as compras de automóveis aumentaram 93%. Sem esquecer o fato bem concreto de que na pauta de exportação, a venda de produtos básicos conheceu expansão de 24,3%, enquanto a exportação de produtos industrializados avançou 17,4%. É fato que o saldo menor pode ser explicado por fatores sazonais, como a alta no preço do petróleo e os embarques maiores de trigo argentino. Alguns segmentos também praticaram altas inéditas como o salto na compra de enxofre para fertilizantes que subiu 446% em fevereiro em relação ao mesmo mês do ano passado ou de carvão para a indústria siderúrgica que aumentou 344% na mesma comparação.

É fato, por outro lado, que as exportações brasileiras para os EUA cresceram no primeiro bimestre apesar do ambiente econômico desfavorável, com 7,6% de expansão nos embarques para aquele país. No âmbito do Mercosul também ocorreu um aumento de 42,7% em fevereiro, ante 2007. Já as vendas para países africanos subiram 29,1% e para o continente asiático 32,5%.

Se é possível ver bons resultados nestes números de vendas externas, também é necessário ponderar que problemas novos estão bem à vista envolvendo a política cambial e mais precisamente duras decisões a serem tomadas quanto aos limites da reservas. Tais decisões terão significativo impacto na política comercial.

O Banco Central (BC) repete que só intervém no câmbio para expandir reservas e para impedir turbulências nas cotações. Ora, quando as reservas cambiais rondam os US$ 200 bilhões é obrigatório reconhecer alguns fatos novos. O primeiro deles está no prejuízo revelado pelo BC de US$ 47,5 bilhões no ano passado, 254% maior que o de 2006. Motivo: custo das reservas cambiais. A diferença entre o que o BC recebe por cada dólar nas aplicações do mercado internacional e o custo da dívida interna é de cerca de 8% ao ano.

Não são poucos os que já consideram mais do que suficiente o atual limite das reservas. Quando o BC parar de comprar dólares no mercado interno e eles não pararem de chegar porque a economia brasileira tem bons fundamentos em um mundo instável, qual será o limite para a valorização do real? Nesse quadro, como conter as importações e manter as exportações, que agora já estão previstas para alcançar os US$ 180 bilhões? A rigor, o otimismo com a corrente de comércio parece ter esquecido a lógica essencial do dólar flutuante: a de que ele flutua, obediente apenas à lei da oferta e da procura.


Gazeta Mercantil

São Paulo/SP

Caderno A

05/03/2008

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