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Em 2009, publiquei este artigo e creio ser oportuno revisitá-lo em face ao momento atual onde se discute, devido ao baixo nível dos reservatórios, o planejamento do sistema elétrico nacional. Existe uma opinião generalizada de que as usinas térmicas são caras e sujas e que elas serão responsáveis pelo aumento do custo da energia. Ocorre que elas, na realidade, têm uma função vital na segurança energética do Brasil, que é o de evitar o colapso do sistema. Obviamente, este seguro tem um custo. Logo, o que deveria estar em discussão é como reduzir o custo desta segurança.

O sistema elétrico brasileiro tem característica operacional própria e original, entre os grandes sistemas do mundo, em função da elevadíssima proporção de energia hidráulica que utiliza.

Nas usinas hidráulicas o aflúvio aos reservatórios depende da meteorologia, com ciclos anuais e plurianuais. A opção pelo uso da energia hidráulica requer confronto entre valores presentes e futuros, especialmente quanto à água acumulada nos reservatórios. As usinas termelétricas têm, nesse contexto, papel relevante de otimização do uso dos recursos hídricos, apesar de sua pequena contribuição à geração total de eletricidade.

Cada usina termelétrica caracteriza-se, conforme sua tecnologia e condições de suprimento de combustíveis pela sua maior ou menor flexibilidade na geração de energia complementar à de origem hidráulica. Classifica-se, em função disso a sua capacidade em uma parcela flexível e outra inflexível.

A coordenação da operação hidrotérmica brasileira, conforme hoje se conhece, consolidou-se a partir do fortalecimento da integração física dos sistemas elétricos sul e sudeste impulsionado pela construção de Itaipu. Também da lei de Itaipu de 1973 veio o princípio de ‘‘rateio de ônus e vantagens decorrentes do consumo de combustíveis fósseis para geração de energia elétrica’’ e criou-se a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) que hoje é tida como um dos vilões do custo da energia elétrica.

Na prática a programação da geração térmica complementar é feita, anualmente, com base em metodologia que envolve grande número de informações e é aplicada através de complexo modelo de computação. Dessa programação resulta a expectativa de consumo de combustíveis e o respectivo rateio do seu custo total. Com essa complementação termelétrica é possível realizar a otimização do sistema, porque, se a térmica for flexível, quando há água em abundância numa região, as usinas térmicas deixam de ser despachadas e gera-se energia elétrica barata com a água que ia ser jogada fora.

O mecanismo de otimização dos sistemas elétricos interligados, trouxe ganhos significativos e dispêndios moderados. Fazendo uma analise do período de 1985 a 1999, com dados do GCOI, o benefício da operação do sistema hidrotérmico, resultante do aproveitamento de energia hidrelétrica secundária, propiciado pela capacidade flexível das usinas térmicas e medida pelo valor da geração térmica evitada, foi de US$ 345 milhões anuais. No mesmo período o dispêndio médio com a aquisição de combustíveis para a geração térmica foi de US$ 153 milhões.

Em termos relativos às despesas com a compra de combustíveis por esse mecanismo girou em torno de 2% do faturamento total das concessionárias de distribuição do sistema interligado que, em termos finais, traduz-se por tarifas mais baixas para o consumidor final. Quantificando com outro método o sistema de operação de forma cooperativa, o resultado do todo traz mais energia do que a soma do máximo das partes. Isso fez com que o país evitasse se sobre-equipar e sobre-investir em US$ 10 bilhões, em duas décadas, atendendo um mercado 24% maior do que poderia ser atendido se o sistema fosse operado com cada usina buscando se maximizar.

A necessária ampliação na capacidade instalada de geração, que está sendo preponderantemente hidráulica, necessitará de energia firme. Deve-se levar em conta que a capacidade de armazenagem de água nos reservatórios – entenda-se energia - está caindo, em face da redução dos reservatórios por exigência ambiental: as usinas hidráulicas antigas tinham reservatórios com capacidade de armazenamento de 0,51 Km2/MW e hoje temos apenas 0,06 Km2/MW. Teremos a cada vez mais a necessidade e a conveniência da operação hidrotérmica otimizada. Espera-se uma participação de até 30 % da potência total instalada de térmicas no sistema interligado. Portanto, se aumentamos as hidráulicas teremos que, inexoravelmente, crescer as térmicas, mas a elevada participação hidráulica na matriz ainda deverá perdurar ao longo das próximas décadas.

Tratando-se especificamente das usinas térmicas, cabe ressaltar que na Lei 9648/98 a CCC foi praticamente extinta, restando apenas no sistema isolado, que tem um conceito diferente e não deve ser usada para efeito de comparação.

O novo modelo do setor elétrico, criado pelo governo Lula, que tem como uma de suas principais premissas a modicidade tarifária, reconheceu o modelo hidrotérmico e suas vantagens para a Sociedade.

O modelo de leilão para a energia nova, implementado pelo Ministério de Minas e Energia, com gestão da Empresa de Pesquisa Energética, traz no seu bojo o pagamento da disponibilidade das usinas e, ao mesmo tempo, o pagamento do despacho (combustível) inserido na tarifa paga pelo consumidor, valor variável conforme a necessidade do sistema. A velha CCC volta de outra forma. Com a MP 579/12, reduziu-se a conta da energia, mas os encargos continuam a existir incluindo o pagamento dos combustíveis das usinas térmicas. O custo do seguro é pago pelos consumidores que precisam de garantia de energia e isso faz parte do modelo hidrotérmico brasileiro.

Hoje, temos grandes discussões sobre o aumento das tarifas, que estão em níveis de primeiro mundo. Creio que os resultados do modelo de leilão de energia nova devam ser reavaliados. O mercado é muito criativo e muitas vezes as condições de contorno, ocultas ou que não bem avaliadas pelo órgão gestor desta política, levam a distorções no resultado esperado. Vejamos: assimetrias tributárias e distorções nos dados de entrada nos modelos de leilão levaram a instalação de um parque térmico exclusivamente a óleo combustível que, se despachado acima do previsto na modelagem, elevarão o custo final da energia ao consumidor. Portanto a modicidade tarifária estará comprometida. Outras conseqüências são: a) o excesso de oferta no nordeste e carência no sul e sudeste devido a restrições de transmissão e, b) a incerteza do custo de combustível devido à volatilidade dos preços do petróleo e do gás, que são a base desta expansão até 2014. Entendemos que isso é um processo de aprendizagem e, portanto, sujeito a ajustes. Leilões regionais, modificação dos parâmetros do leilão no calculo do ICB, tal como o uso da matriz originaria do calculo da garantia física para o calculo do COP/CEC devem ser considerados como forma de aperfeiçoamento do modelo.

O MME já está fazendo leilões de reserva para biomassa e para eólicas, porque não fazer para outras fontes? Porque não avançar em projetos estruturantes? A visão de planejar o Pais com usinas renováveis sem capacidade de estocar energia (eólicas, hidro sem reservatório, PCHs) como usinas de segurança do sistema, precisa ser reavaliada. As mudanças climáticas não podem ser a principal razão para a expansão. A baixa hidraulicidade de 2012/13 confirma a importância das térmicas e o acerto da operação do modelo hidrotérmico.

É importante manter os benefícios da otimização hidrotérmica. Reconhecendo-se a característica essencial do nosso sistema hidrotérmico que é a necessidade de geração térmica flexível ajustada à hidrologia de cada ano. É preciso viabilizar a implementação de um parque térmico de usinas a carvão mineral. Adicionalmente ao exposto sobre a importância da operação hidrotérmica para o Brasil, especificamente quanto a térmicas flexíveis, cujo combustível pode ser estocado, cabe salientar as vantagens macroeconômicas do aproveitamento do carvão mineral nacional para o abastecimento de energia elétrica em nosso País, em especial: combustível em moeda nacional (sem influência do câmbio), menor impacto na balança de transações correntes, geração de emprego e renda e disponibilidade de reservas para suprir cerca de 18 mil MW em mais de 100 anos o que contribui para a segurança energética do Brasil.

Temos a certeza que se adotarmos a política energética correta, sem “demonizar” ou agregar externalidades ao custo da geração a carvão – como taxação ou compensação de gases de efeito estufa – num país que precisa crescer e usar todas suas fontes de energia para tal, teremos uma matriz equilibrada que contemplará a modicidade tarifária - preservando nossa competitividade industrial – a segurança energética e a preservação ambiental.

Fernando Luiz Zancan é Presidente da ABCM - janeiro de 2013

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Em 2009, publiquei este artigo e creio ser oportuno revisitá-lo em face ao momento atual onde se discute, devido ao baixo nível dos reservatórios, o planejamento do sistema elétrico nacional. Existe uma opinião generalizada de que as usinas térmicas são caras e sujas e que elas serão responsáveis pelo aumento do custo da energia. Ocorre que elas, na realidade, têm uma função vital na segurança energética do Brasil, que é o de evitar o colapso do sistema. Obviamente, este seguro tem um custo. Logo, o que deveria estar em discussão é como reduzir o custo desta segurança.

O sistema elétrico brasileiro tem característica operacional própria e original, entre os grandes sistemas do mundo, em função da elevadíssima proporção de energia hidráulica que utiliza.

Nas usinas hidráulicas o aflúvio aos reservatórios depende da meteorologia, com ciclos anuais e plurianuais. A opção pelo uso da energia hidráulica requer confronto entre valores presentes e futuros, especialmente quanto à água acumulada nos reservatórios. As usinas termelétricas têm, nesse contexto, papel relevante de otimização do uso dos recursos hídricos, apesar de sua pequena contribuição à geração total de eletricidade.

Cada usina termelétrica caracteriza-se, conforme sua tecnologia e condições de suprimento de combustíveis pela sua maior ou menor flexibilidade na geração de energia complementar à de origem hidráulica. Classifica-se, em função disso a sua capacidade em uma parcela flexível e outra inflexível.

A coordenação da operação hidrotérmica brasileira, conforme hoje se conhece, consolidou-se a partir do fortalecimento da integração física dos sistemas elétricos sul e sudeste impulsionado pela construção de Itaipu. Também da lei de Itaipu de 1973 veio o princípio de ‘‘rateio de ônus e vantagens decorrentes do consumo de combustíveis fósseis para geração de energia elétrica’’ e criou-se a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) que hoje é tida como um dos vilões do custo da energia elétrica.

Na prática a programação da geração térmica complementar é feita, anualmente, com base em metodologia que envolve grande número de informações e é aplicada através de complexo modelo de computação. Dessa programação resulta a expectativa de consumo de combustíveis e o respectivo rateio do seu custo total. Com essa complementação termelétrica é possível realizar a otimização do sistema, porque, se a térmica for flexível, quando há água em abundância numa região, as usinas térmicas deixam de ser despachadas e gera-se energia elétrica barata com a água que ia ser jogada fora.

O mecanismo de otimização dos sistemas elétricos interligados, trouxe ganhos significativos e dispêndios moderados. Fazendo uma analise do período de 1985 a 1999, com dados do GCOI, o benefício da operação do sistema hidrotérmico, resultante do aproveitamento de energia hidrelétrica secundária, propiciado pela capacidade flexível das usinas térmicas e medida pelo valor da geração térmica evitada, foi de US$ 345 milhões anuais. No mesmo período o dispêndio médio com a aquisição de combustíveis para a geração térmica foi de US$ 153 milhões.

Em termos relativos às despesas com a compra de combustíveis por esse mecanismo girou em torno de 2% do faturamento total das concessionárias de distribuição do sistema interligado que, em termos finais, traduz-se por tarifas mais baixas para o consumidor final. Quantificando com outro método o sistema de operação de forma cooperativa, o resultado do todo traz mais energia do que a soma do máximo das partes. Isso fez com que o país evitasse se sobre-equipar e sobre-investir em US$ 10 bilhões, em duas décadas, atendendo um mercado 24% maior do que poderia ser atendido se o sistema fosse operado com cada usina buscando se maximizar.

A necessária ampliação na capacidade instalada de geração, que está sendo preponderantemente hidráulica, necessitará de energia firme. Deve-se levar em conta que a capacidade de armazenagem de água nos reservatórios – entenda-se energia - está caindo, em face da redução dos reservatórios por exigência ambiental: as usinas hidráulicas antigas tinham reservatórios com capacidade de armazenamento de 0,51 Km2/MW e hoje temos apenas 0,06 Km2/MW. Teremos a cada vez mais a necessidade e a conveniência da operação hidrotérmica otimizada. Espera-se uma participação de até 30 % da potência total instalada de térmicas no sistema interligado. Portanto, se aumentamos as hidráulicas teremos que, inexoravelmente, crescer as térmicas, mas a elevada participação hidráulica na matriz ainda deverá perdurar ao longo das próximas décadas.

Tratando-se especificamente das usinas térmicas, cabe ressaltar que na Lei 9648/98 a CCC foi praticamente extinta, restando apenas no sistema isolado, que tem um conceito diferente e não deve ser usada para efeito de comparação.

O novo modelo do setor elétrico, criado pelo governo Lula, que tem como uma de suas principais premissas a modicidade tarifária, reconheceu o modelo hidrotérmico e suas vantagens para a Sociedade.

O modelo de leilão para a energia nova, implementado pelo Ministério de Minas e Energia, com gestão da Empresa de Pesquisa Energética, traz no seu bojo o pagamento da disponibilidade das usinas e, ao mesmo tempo, o pagamento do despacho (combustível) inserido na tarifa paga pelo consumidor, valor variável conforme a necessidade do sistema. A velha CCC volta de outra forma. Com a MP 579/12, reduziu-se a conta da energia, mas os encargos continuam a existir incluindo o pagamento dos combustíveis das usinas térmicas. O custo do seguro é pago pelos consumidores que precisam de garantia de energia e isso faz parte do modelo hidrotérmico brasileiro.

Hoje, temos grandes discussões sobre o aumento das tarifas, que estão em níveis de primeiro mundo. Creio que os resultados do modelo de leilão de energia nova devam ser reavaliados. O mercado é muito criativo e muitas vezes as condições de contorno, ocultas ou que não bem avaliadas pelo órgão gestor desta política, levam a distorções no resultado esperado. Vejamos: assimetrias tributárias e distorções nos dados de entrada nos modelos de leilão levaram a instalação de um parque térmico exclusivamente a óleo combustível que, se despachado acima do previsto na modelagem, elevarão o custo final da energia ao consumidor. Portanto a modicidade tarifária estará comprometida. Outras conseqüências são: a) o excesso de oferta no nordeste e carência no sul e sudeste devido a restrições de transmissão e, b) a incerteza do custo de combustível devido à volatilidade dos preços do petróleo e do gás, que são a base desta expansão até 2014. Entendemos que isso é um processo de aprendizagem e, portanto, sujeito a ajustes. Leilões regionais, modificação dos parâmetros do leilão no calculo do ICB, tal como o uso da matriz originaria do calculo da garantia física para o calculo do COP/CEC devem ser considerados como forma de aperfeiçoamento do modelo.

O MME já está fazendo leilões de reserva para biomassa e para eólicas, porque não fazer para outras fontes? Porque não avançar em projetos estruturantes? A visão de planejar o Pais com usinas renováveis sem capacidade de estocar energia (eólicas, hidro sem reservatório, PCHs) como usinas de segurança do sistema, precisa ser reavaliada. As mudanças climáticas não podem ser a principal razão para a expansão. A baixa hidraulicidade de 2012/13 confirma a importância das térmicas e o acerto da operação do modelo hidrotérmico.

É importante manter os benefícios da otimização hidrotérmica. Reconhecendo-se a característica essencial do nosso sistema hidrotérmico que é a necessidade de geração térmica flexível ajustada à hidrologia de cada ano. É preciso viabilizar a implementação de um parque térmico de usinas a carvão mineral. Adicionalmente ao exposto sobre a importância da operação hidrotérmica para o Brasil, especificamente quanto a térmicas flexíveis, cujo combustível pode ser estocado, cabe salientar as vantagens macroeconômicas do aproveitamento do carvão mineral nacional para o abastecimento de energia elétrica em nosso País, em especial: combustível em moeda nacional (sem influência do câmbio), menor impacto na balança de transações correntes, geração de emprego e renda e disponibilidade de reservas para suprir cerca de 18 mil MW em mais de 100 anos o que contribui para a segurança energética do Brasil.

Temos a certeza que se adotarmos a política energética correta, sem “demonizar” ou agregar externalidades ao custo da geração a carvão – como taxação ou compensação de gases de efeito estufa – num país que precisa crescer e usar todas suas fontes de energia para tal, teremos uma matriz equilibrada que contemplará a modicidade tarifária - preservando nossa competitividade industrial – a segurança energética e a preservação ambiental.

Fernando Luiz Zancan é Presidente da ABCM - janeiro de 2013

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A Operação Hidrotérmica e as Térmicas a Carvão Mineral

10/01/2013

Fernando Luiz Zancan

Em 2009, publiquei este artigo e creio ser oportuno revisitá-lo em face ao momento atual onde se discute, devido ao baixo nível dos reservatórios, o planejamento do sistema elétrico nacional. Existe uma opinião generalizada de que as usinas térmicas são caras e sujas e que elas serão responsáveis pelo aumento do custo da energia. Ocorre que elas, na realidade, têm uma função vital na segurança energética do Brasil, que é o de evitar o colapso do sistema. Obviamente, este seguro tem um custo. Logo, o que deveria estar em discussão é como reduzir o custo desta segurança.

O sistema elétrico brasileiro tem característica operacional própria e original, entre os grandes sistemas do mundo, em função da elevadíssima proporção de energia hidráulica que utiliza.

Nas usinas hidráulicas o aflúvio aos reservatórios depende da meteorologia, com ciclos anuais e plurianuais. A opção pelo uso da energia hidráulica requer confronto entre valores presentes e futuros, especialmente quanto à água acumulada nos reservatórios. As usinas termelétricas têm, nesse contexto, papel relevante de otimização do uso dos recursos hídricos, apesar de sua pequena contribuição à geração total de eletricidade.

Cada usina termelétrica caracteriza-se, conforme sua tecnologia e condições de suprimento de combustíveis pela sua maior ou menor flexibilidade na geração de energia complementar à de origem hidráulica. Classifica-se, em função disso a sua capacidade em uma parcela flexível e outra inflexível.

A coordenação da operação hidrotérmica brasileira, conforme hoje se conhece, consolidou-se a partir do fortalecimento da integração física dos sistemas elétricos sul e sudeste impulsionado pela construção de Itaipu. Também da lei de Itaipu de 1973 veio o princípio de ‘‘rateio de ônus e vantagens decorrentes do consumo de combustíveis fósseis para geração de energia elétrica’’ e criou-se a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) que hoje é tida como um dos vilões do custo da energia elétrica.

Na prática a programação da geração térmica complementar é feita, anualmente, com base em metodologia que envolve grande número de informações e é aplicada através de complexo modelo de computação. Dessa programação resulta a expectativa de consumo de combustíveis e o respectivo rateio do seu custo total. Com essa complementação termelétrica é possível realizar a otimização do sistema, porque, se a térmica for flexível, quando há água em abundância numa região, as usinas térmicas deixam de ser despachadas e gera-se energia elétrica barata com a água que ia ser jogada fora.

O mecanismo de otimização dos sistemas elétricos interligados, trouxe ganhos significativos e dispêndios moderados. Fazendo uma analise do período de 1985 a 1999, com dados do GCOI, o benefício da operação do sistema hidrotérmico, resultante do aproveitamento de energia hidrelétrica secundária, propiciado pela capacidade flexível das usinas térmicas e medida pelo valor da geração térmica evitada, foi de US$ 345 milhões anuais. No mesmo período o dispêndio médio com a aquisição de combustíveis para a geração térmica foi de US$ 153 milhões.

Em termos relativos às despesas com a compra de combustíveis por esse mecanismo girou em torno de 2% do faturamento total das concessionárias de distribuição do sistema interligado que, em termos finais, traduz-se por tarifas mais baixas para o consumidor final. Quantificando com outro método o sistema de operação de forma cooperativa, o resultado do todo traz mais energia do que a soma do máximo das partes. Isso fez com que o país evitasse se sobre-equipar e sobre-investir em US$ 10 bilhões, em duas décadas, atendendo um mercado 24% maior do que poderia ser atendido se o sistema fosse operado com cada usina buscando se maximizar.

A necessária ampliação na capacidade instalada de geração, que está sendo preponderantemente hidráulica, necessitará de energia firme. Deve-se levar em conta que a capacidade de armazenagem de água nos reservatórios – entenda-se energia - está caindo, em face da redução dos reservatórios por exigência ambiental: as usinas hidráulicas antigas tinham reservatórios com capacidade de armazenamento de 0,51 Km2/MW e hoje temos apenas 0,06 Km2/MW. Teremos a cada vez mais a necessidade e a conveniência da operação hidrotérmica otimizada. Espera-se uma participação de até 30 % da potência total instalada de térmicas no sistema interligado. Portanto, se aumentamos as hidráulicas teremos que, inexoravelmente, crescer as térmicas, mas a elevada participação hidráulica na matriz ainda deverá perdurar ao longo das próximas décadas.

Tratando-se especificamente das usinas térmicas, cabe ressaltar que na Lei 9648/98 a CCC foi praticamente extinta, restando apenas no sistema isolado, que tem um conceito diferente e não deve ser usada para efeito de comparação.

O novo modelo do setor elétrico, criado pelo governo Lula, que tem como uma de suas principais premissas a modicidade tarifária, reconheceu o modelo hidrotérmico e suas vantagens para a Sociedade.

O modelo de leilão para a energia nova, implementado pelo Ministério de Minas e Energia, com gestão da Empresa de Pesquisa Energética, traz no seu bojo o pagamento da disponibilidade das usinas e, ao mesmo tempo, o pagamento do despacho (combustível) inserido na tarifa paga pelo consumidor, valor variável conforme a necessidade do sistema. A velha CCC volta de outra forma. Com a MP 579/12, reduziu-se a conta da energia, mas os encargos continuam a existir incluindo o pagamento dos combustíveis das usinas térmicas. O custo do seguro é pago pelos consumidores que precisam de garantia de energia e isso faz parte do modelo hidrotérmico brasileiro.

Hoje, temos grandes discussões sobre o aumento das tarifas, que estão em níveis de primeiro mundo. Creio que os resultados do modelo de leilão de energia nova devam ser reavaliados. O mercado é muito criativo e muitas vezes as condições de contorno, ocultas ou que não bem avaliadas pelo órgão gestor desta política, levam a distorções no resultado esperado. Vejamos: assimetrias tributárias e distorções nos dados de entrada nos modelos de leilão levaram a instalação de um parque térmico exclusivamente a óleo combustível que, se despachado acima do previsto na modelagem, elevarão o custo final da energia ao consumidor. Portanto a modicidade tarifária estará comprometida. Outras conseqüências são: a) o excesso de oferta no nordeste e carência no sul e sudeste devido a restrições de transmissão e, b) a incerteza do custo de combustível devido à volatilidade dos preços do petróleo e do gás, que são a base desta expansão até 2014. Entendemos que isso é um processo de aprendizagem e, portanto, sujeito a ajustes. Leilões regionais, modificação dos parâmetros do leilão no calculo do ICB, tal como o uso da matriz originaria do calculo da garantia física para o calculo do COP/CEC devem ser considerados como forma de aperfeiçoamento do modelo.

O MME já está fazendo leilões de reserva para biomassa e para eólicas, porque não fazer para outras fontes? Porque não avançar em projetos estruturantes? A visão de planejar o Pais com usinas renováveis sem capacidade de estocar energia (eólicas, hidro sem reservatório, PCHs) como usinas de segurança do sistema, precisa ser reavaliada. As mudanças climáticas não podem ser a principal razão para a expansão. A baixa hidraulicidade de 2012/13 confirma a importância das térmicas e o acerto da operação do modelo hidrotérmico.

É importante manter os benefícios da otimização hidrotérmica. Reconhecendo-se a característica essencial do nosso sistema hidrotérmico que é a necessidade de geração térmica flexível ajustada à hidrologia de cada ano. É preciso viabilizar a implementação de um parque térmico de usinas a carvão mineral. Adicionalmente ao exposto sobre a importância da operação hidrotérmica para o Brasil, especificamente quanto a térmicas flexíveis, cujo combustível pode ser estocado, cabe salientar as vantagens macroeconômicas do aproveitamento do carvão mineral nacional para o abastecimento de energia elétrica em nosso País, em especial: combustível em moeda nacional (sem influência do câmbio), menor impacto na balança de transações correntes, geração de emprego e renda e disponibilidade de reservas para suprir cerca de 18 mil MW em mais de 100 anos o que contribui para a segurança energética do Brasil.

Temos a certeza que se adotarmos a política energética correta, sem “demonizar” ou agregar externalidades ao custo da geração a carvão – como taxação ou compensação de gases de efeito estufa – num país que precisa crescer e usar todas suas fontes de energia para tal, teremos uma matriz equilibrada que contemplará a modicidade tarifária - preservando nossa competitividade industrial – a segurança energética e a preservação ambiental.

Fernando Luiz Zancan é Presidente da ABCM - janeiro de 2013

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