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    [resumo] => Nos próximos 15 anos o Brasil deverá construir suas últimas grandes hidrelétricas, encerrando um ciclo de décadas em que essas usinas foram protagonistas na expansão do setor elétrico do país e lançando um desafio para os planejadores, que terão de buscar uma nova fonte confiável para reestruturar a matriz elétrica brasileira.
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Nos próximos 15 anos o Brasil deverá construir suas últimas grandes hidrelétricas, encerrando um ciclo de décadas em que essas usinas foram protagonistas na expansão do setor elétrico do país e lançando um desafio para os planejadores, que terão de buscar uma nova fonte confiável para reestruturar a matriz elétrica brasileira.

O desafio se tornou maior nos últimos dois anos, diante de chuvas irregulares e rápido esvaziamento de represas de hidrelétricas. O fenômeno levantou a discussão sobre a necessidade de se expandir a geração termelétrica do Brasil imediatamente para assegurar a segurança no abastecimento de energia do país, já que o tempo de recomposição das represas aumentou e não ocorre mais a cada ano.

Para a consultoria PSR, dificuldades recentes no abastecimento devem-se ao fato de a capacidade estrutural de geração ser menor do que o consumo."Este problema pode ser corrigido por meio da contratação de reforço na capacidade de geração, adicional ao já planejado, estimado pela PSR em 2 mil MW médios", disse o diretor da PSR, Luiz Augusto Barroso.

As necessidades de energia do país para os próximos anos são expressivas. O Plano Decenal de Expansão 2022 do Ministério de Minas e Energia estima que entre 2012 e 2022 o país precisará de um acréscimo de 4,2 por cento ao ano na potência instalada, totalizando cerca de 40 mil MW a mais até o fim do período.

Enquanto isso, o plano prevê que até 2022 a capacidade instalada do país terá um acréscimo de 63,5 mil MW, um crescimento de 53 por cento sobre a capacidade de 2012, o que garantiria as novas necessidades, de acordo com os dados do governo.

Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, além do esperado aumento de fontes como eólica e solar, o país precisará após 2030 de reforço na base da matriz elétrica de fontes que gerem energia sem interrupções.
Em 2012, as hidrelétricas representavam cerca de 71 por cento da capacidade instalada de geração brasileira. Mas essa participação deve cair em 2022 para cerca de 65 por cento, recuando ainda mais a partir de 2025 e 2030, segundo o ministério.

"Em algum momento no futuro, vamos chegar numa situação em que não teremos mais novas hidrelétricas para construir porque aproveitamos tudo que era possível e a parcela que não vamos aproveitar está localizada em terras indígenas", disse o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura.

"Quando não tivermos mais hidrelétricas para construir com tecnologias de hoje, teremos que substituir essa fonte hidrelétrica por fontes térmicas", acrescentou.

As usinas eólicas e solares, apesar da tendência de aumentar cada vez mais sua presença na matriz elétrica brasileira, dependem do vento e do sol para funcionarem, enquanto uma usina hidrelétrica com reservatório e uma termelétrica, por exemplo, são mais previsíveis.

"Vamos precisar de alguma fonte de base, a não ser que inventem uma bateria capaz de estocar energia dessas fontes (eólica e solar)", disse à Reuters o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim.
Para ele, considerando as tecnologias conhecidas, as usinas termelétricas a gás natural seriam a primeira opção para substituir as hidrelétricas como espinha dorsal da expansão da geração, mas isso depende de reservas como as da camada pré-sal ou mesmo as de gás não convencional confirmarem seu potencial.

"Aparentemente há muito gás no pré-sal, mas ainda é uma incógnita qual o volume desse gás, qual o preço a que vai chegar e o tempo de duração de uso que teremos dele. Se tiver muito gás abundante e barato, o gás é a fonte prioritária para substuituir a hidrelétrica de reservatório", disse.

As usinas a gás natural já estão entre as prioridades de aumento das fontes termelétricas no plano de expansão em vigor no país, lembra Altino Ventura. O gás natural explorado no Brasil tem a preferência dos planejadores em relação a outros combustíveis, como carvão mineral e óleo combustível ou diesel, por custar e poluir menos.

Segundo Ventura, cerca de 81 por cento da expansão da oferta de energia no Brasil está baseada em hidrelétricas, eólicas e usinas a biomassa de cana-de-açúcar nos próximos 10 anos. A intenção é que cerca de outros 15 por cento da expansão sejam feitos com gás natural.

O planejamento mais sistemático e de longo prazo para os investimentos em energia é uma das principais características do chamado "Novo Modelo" do setor elétrico brasileiro. O modelo foi implantado pela presidente Dilma Rousseff quando era ministra de Minas e Energia e em 2014 completa uma década.

NUCLEAR COMO ALTERNATIVA

Se o gás natural não se mostrar viável, Tolmasquim acredita que a energia nuclear passará a ser a principal opção para o país. "O Brasil tem a sexta reserva do mundo de urânio, domina o enriquecimento de urânio. É uma tecnologia para a qual não se pode fechar a porta. Pode ser necessária no futuro", disse ele.

Menos poluente do ponto de vista da emissão de gases, a energia nuclear traz outras polêmicas, como a destinação a ser dada aos resíduos radioativos e o temor de acidentes, que aumentou em todo o mundo depois do desastre ocorrido na central de Fukushima, no Japão, em 2011.

O desastre no Japão, inclusive, fez o governo congelar o plano de construir mais quatro usinas nucleares, além da central de Angra 3, cuja obra ainda está em andamento. Para o coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), Nivalde de Castro, novas usinas nucleares deveriam começar a entrar no planejamento de longo prazo.

"A nuclear é a forma mais firme de todas as termelétricas. Do ponto de vista da segurança do suprimento, a nuclear já deveria entrar no Plano Decenal de 2015 a 2025", disse Castro.

Ventura diz que a necessidade na energia nuclear no Brasil aparece no longo prazo, de forma que a inclusão de maior potencial deve ser pensada na matriz para entrada após 2025 ou 2030, a depender da evolução da expansão da matriz elétrica brasileira.

Segundo ele, atualmente, não há intenção do planejamento brasileiro de aumentar a participação da energia nuclear na matriz nos próximos dez anos, além da usina nuclear Angra 3.

A construção de usinas nucleares é demorada, com prazos tipicamente superiores a 8 anos e a construção das usinas de nova geração na China e nos Estados Unidos deve ser monitorada, diz Luiz Augusto Barroso, da PSR. "A agência regulatória dos EUA desenvolveu novos procedimentos de licenciamento prévio que poderão contribuir para reduções dos prazos de construção."

EXECUÇÃO DE PLANOS E SEGURANÇA DA MATRIZ

O governo federal descarta problema estrutural na matriz, mas considera maior entrada de projetos térmicos. Tolmasquim já afirmou que, dos 38 mil megawatts (MW) novos que devem ser contratados em leilões até 2018, cerca de 7,5 mil MW devem vir de usinas termelétricas movidas a gás natural ou carvão.

A urgência da inclusão de térmicas na matriz ocorre porque além do forte número de usinas eólicas que está entrando no conjunto elétrico do país, as hidrelétricas que já estão sendo viabilizadas atualmente --incluindo as duas usinas do rio Madeira e Belo Monte, no rio Xingu-- não têm reservatórios de acumulação de água.

Assim, as térmicas são como baterias para o sistema, sendo rapidamente acionadas em momentos em que as usinas eólicas e as hidrelétricas sem reservatórios, por exemplo, não estejam gerando o suficiente para atender a demanda do país.

"Usinas sem reservatórios são análogas, parecidas, aos parques eólicos", disse o ex-diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Agência Nacional de Águas (ANA) Jerson Kelman, explicando que a diminuição da capacidade de regularização do sistema hidrelétrico faz com que o país precise ter mais usinas com capacidade de gerar energia na base, sem interrupções.

A maior proporção de térmicas na matriz para compensar a ausência de reservatórios de regularização de hidrelétricas, segundo Kelman, tende a acontecer naturalmente, com o sistema elétrico do país se aproximando da dinâmica europeia.

Kelman acrescenta que deve haver uma discussão transparente no Congresso Nacional sobre qual a matriz elétrica ideal que o Brasil deve ter. Isso evitaria a forte oposição que atrasa empreendimentos e a execução de projetos planejados seria um compromisso de todos os órgãos envolvidos. "O que nós temos que sair é da situação atual em que nada pode", disse.

Atrasos para execução de projetos diante da oposição de grupos da sociedade e demora para liberação de licenças por órgão ambientais são apontados como algumas das principais dificuldades para que a expansão elétrica do país seja implantada dentro dos cronogramas planejados.

A proposta de Kelman de discutir no Congresso a matriz é defendida também pelos responsáveis pela área de energia na campanha do pré-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos.

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Nos próximos 15 anos o Brasil deverá construir suas últimas grandes hidrelétricas, encerrando um ciclo de décadas em que essas usinas foram protagonistas na expansão do setor elétrico do país e lançando um desafio para os planejadores, que terão de buscar uma nova fonte confiável para reestruturar a matriz elétrica brasileira.

O desafio se tornou maior nos últimos dois anos, diante de chuvas irregulares e rápido esvaziamento de represas de hidrelétricas. O fenômeno levantou a discussão sobre a necessidade de se expandir a geração termelétrica do Brasil imediatamente para assegurar a segurança no abastecimento de energia do país, já que o tempo de recomposição das represas aumentou e não ocorre mais a cada ano.

Para a consultoria PSR, dificuldades recentes no abastecimento devem-se ao fato de a capacidade estrutural de geração ser menor do que o consumo."Este problema pode ser corrigido por meio da contratação de reforço na capacidade de geração, adicional ao já planejado, estimado pela PSR em 2 mil MW médios", disse o diretor da PSR, Luiz Augusto Barroso.

As necessidades de energia do país para os próximos anos são expressivas. O Plano Decenal de Expansão 2022 do Ministério de Minas e Energia estima que entre 2012 e 2022 o país precisará de um acréscimo de 4,2 por cento ao ano na potência instalada, totalizando cerca de 40 mil MW a mais até o fim do período.

Enquanto isso, o plano prevê que até 2022 a capacidade instalada do país terá um acréscimo de 63,5 mil MW, um crescimento de 53 por cento sobre a capacidade de 2012, o que garantiria as novas necessidades, de acordo com os dados do governo.

Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, além do esperado aumento de fontes como eólica e solar, o país precisará após 2030 de reforço na base da matriz elétrica de fontes que gerem energia sem interrupções.
Em 2012, as hidrelétricas representavam cerca de 71 por cento da capacidade instalada de geração brasileira. Mas essa participação deve cair em 2022 para cerca de 65 por cento, recuando ainda mais a partir de 2025 e 2030, segundo o ministério.

"Em algum momento no futuro, vamos chegar numa situação em que não teremos mais novas hidrelétricas para construir porque aproveitamos tudo que era possível e a parcela que não vamos aproveitar está localizada em terras indígenas", disse o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura.

"Quando não tivermos mais hidrelétricas para construir com tecnologias de hoje, teremos que substituir essa fonte hidrelétrica por fontes térmicas", acrescentou.

As usinas eólicas e solares, apesar da tendência de aumentar cada vez mais sua presença na matriz elétrica brasileira, dependem do vento e do sol para funcionarem, enquanto uma usina hidrelétrica com reservatório e uma termelétrica, por exemplo, são mais previsíveis.

"Vamos precisar de alguma fonte de base, a não ser que inventem uma bateria capaz de estocar energia dessas fontes (eólica e solar)", disse à Reuters o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim.
Para ele, considerando as tecnologias conhecidas, as usinas termelétricas a gás natural seriam a primeira opção para substituir as hidrelétricas como espinha dorsal da expansão da geração, mas isso depende de reservas como as da camada pré-sal ou mesmo as de gás não convencional confirmarem seu potencial.

"Aparentemente há muito gás no pré-sal, mas ainda é uma incógnita qual o volume desse gás, qual o preço a que vai chegar e o tempo de duração de uso que teremos dele. Se tiver muito gás abundante e barato, o gás é a fonte prioritária para substuituir a hidrelétrica de reservatório", disse.

As usinas a gás natural já estão entre as prioridades de aumento das fontes termelétricas no plano de expansão em vigor no país, lembra Altino Ventura. O gás natural explorado no Brasil tem a preferência dos planejadores em relação a outros combustíveis, como carvão mineral e óleo combustível ou diesel, por custar e poluir menos.

Segundo Ventura, cerca de 81 por cento da expansão da oferta de energia no Brasil está baseada em hidrelétricas, eólicas e usinas a biomassa de cana-de-açúcar nos próximos 10 anos. A intenção é que cerca de outros 15 por cento da expansão sejam feitos com gás natural.

O planejamento mais sistemático e de longo prazo para os investimentos em energia é uma das principais características do chamado "Novo Modelo" do setor elétrico brasileiro. O modelo foi implantado pela presidente Dilma Rousseff quando era ministra de Minas e Energia e em 2014 completa uma década.

NUCLEAR COMO ALTERNATIVA

Se o gás natural não se mostrar viável, Tolmasquim acredita que a energia nuclear passará a ser a principal opção para o país. "O Brasil tem a sexta reserva do mundo de urânio, domina o enriquecimento de urânio. É uma tecnologia para a qual não se pode fechar a porta. Pode ser necessária no futuro", disse ele.

Menos poluente do ponto de vista da emissão de gases, a energia nuclear traz outras polêmicas, como a destinação a ser dada aos resíduos radioativos e o temor de acidentes, que aumentou em todo o mundo depois do desastre ocorrido na central de Fukushima, no Japão, em 2011.

O desastre no Japão, inclusive, fez o governo congelar o plano de construir mais quatro usinas nucleares, além da central de Angra 3, cuja obra ainda está em andamento. Para o coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), Nivalde de Castro, novas usinas nucleares deveriam começar a entrar no planejamento de longo prazo.

"A nuclear é a forma mais firme de todas as termelétricas. Do ponto de vista da segurança do suprimento, a nuclear já deveria entrar no Plano Decenal de 2015 a 2025", disse Castro.

Ventura diz que a necessidade na energia nuclear no Brasil aparece no longo prazo, de forma que a inclusão de maior potencial deve ser pensada na matriz para entrada após 2025 ou 2030, a depender da evolução da expansão da matriz elétrica brasileira.

Segundo ele, atualmente, não há intenção do planejamento brasileiro de aumentar a participação da energia nuclear na matriz nos próximos dez anos, além da usina nuclear Angra 3.

A construção de usinas nucleares é demorada, com prazos tipicamente superiores a 8 anos e a construção das usinas de nova geração na China e nos Estados Unidos deve ser monitorada, diz Luiz Augusto Barroso, da PSR. "A agência regulatória dos EUA desenvolveu novos procedimentos de licenciamento prévio que poderão contribuir para reduções dos prazos de construção."

EXECUÇÃO DE PLANOS E SEGURANÇA DA MATRIZ

O governo federal descarta problema estrutural na matriz, mas considera maior entrada de projetos térmicos. Tolmasquim já afirmou que, dos 38 mil megawatts (MW) novos que devem ser contratados em leilões até 2018, cerca de 7,5 mil MW devem vir de usinas termelétricas movidas a gás natural ou carvão.

A urgência da inclusão de térmicas na matriz ocorre porque além do forte número de usinas eólicas que está entrando no conjunto elétrico do país, as hidrelétricas que já estão sendo viabilizadas atualmente --incluindo as duas usinas do rio Madeira e Belo Monte, no rio Xingu-- não têm reservatórios de acumulação de água.

Assim, as térmicas são como baterias para o sistema, sendo rapidamente acionadas em momentos em que as usinas eólicas e as hidrelétricas sem reservatórios, por exemplo, não estejam gerando o suficiente para atender a demanda do país.

"Usinas sem reservatórios são análogas, parecidas, aos parques eólicos", disse o ex-diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Agência Nacional de Águas (ANA) Jerson Kelman, explicando que a diminuição da capacidade de regularização do sistema hidrelétrico faz com que o país precise ter mais usinas com capacidade de gerar energia na base, sem interrupções.

A maior proporção de térmicas na matriz para compensar a ausência de reservatórios de regularização de hidrelétricas, segundo Kelman, tende a acontecer naturalmente, com o sistema elétrico do país se aproximando da dinâmica europeia.

Kelman acrescenta que deve haver uma discussão transparente no Congresso Nacional sobre qual a matriz elétrica ideal que o Brasil deve ter. Isso evitaria a forte oposição que atrasa empreendimentos e a execução de projetos planejados seria um compromisso de todos os órgãos envolvidos. "O que nós temos que sair é da situação atual em que nada pode", disse.

Atrasos para execução de projetos diante da oposição de grupos da sociedade e demora para liberação de licenças por órgão ambientais são apontados como algumas das principais dificuldades para que a expansão elétrica do país seja implantada dentro dos cronogramas planejados.

A proposta de Kelman de discutir no Congresso a matriz é defendida também pelos responsáveis pela área de energia na campanha do pré-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos.

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Fim de potencial hidrelétrico desafia Brasil para expansão energética

23/06/2014

Leonardo Goye e Anna Flávia Rochas

Nos próximos 15 anos o Brasil deverá construir suas últimas grandes hidrelétricas, encerrando um ciclo de décadas em que essas usinas foram protagonistas na expansão do setor elétrico do país e lançando um desafio para os planejadores, que terão de buscar uma nova fonte confiável para reestruturar a matriz elétrica brasileira.

O desafio se tornou maior nos últimos dois anos, diante de chuvas irregulares e rápido esvaziamento de represas de hidrelétricas. O fenômeno levantou a discussão sobre a necessidade de se expandir a geração termelétrica do Brasil imediatamente para assegurar a segurança no abastecimento de energia do país, já que o tempo de recomposição das represas aumentou e não ocorre mais a cada ano.

Para a consultoria PSR, dificuldades recentes no abastecimento devem-se ao fato de a capacidade estrutural de geração ser menor do que o consumo."Este problema pode ser corrigido por meio da contratação de reforço na capacidade de geração, adicional ao já planejado, estimado pela PSR em 2 mil MW médios", disse o diretor da PSR, Luiz Augusto Barroso.

As necessidades de energia do país para os próximos anos são expressivas. O Plano Decenal de Expansão 2022 do Ministério de Minas e Energia estima que entre 2012 e 2022 o país precisará de um acréscimo de 4,2 por cento ao ano na potência instalada, totalizando cerca de 40 mil MW a mais até o fim do período.

Enquanto isso, o plano prevê que até 2022 a capacidade instalada do país terá um acréscimo de 63,5 mil MW, um crescimento de 53 por cento sobre a capacidade de 2012, o que garantiria as novas necessidades, de acordo com os dados do governo.

Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, além do esperado aumento de fontes como eólica e solar, o país precisará após 2030 de reforço na base da matriz elétrica de fontes que gerem energia sem interrupções.
Em 2012, as hidrelétricas representavam cerca de 71 por cento da capacidade instalada de geração brasileira. Mas essa participação deve cair em 2022 para cerca de 65 por cento, recuando ainda mais a partir de 2025 e 2030, segundo o ministério.

"Em algum momento no futuro, vamos chegar numa situação em que não teremos mais novas hidrelétricas para construir porque aproveitamos tudo que era possível e a parcela que não vamos aproveitar está localizada em terras indígenas", disse o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura.

"Quando não tivermos mais hidrelétricas para construir com tecnologias de hoje, teremos que substituir essa fonte hidrelétrica por fontes térmicas", acrescentou.

As usinas eólicas e solares, apesar da tendência de aumentar cada vez mais sua presença na matriz elétrica brasileira, dependem do vento e do sol para funcionarem, enquanto uma usina hidrelétrica com reservatório e uma termelétrica, por exemplo, são mais previsíveis.

"Vamos precisar de alguma fonte de base, a não ser que inventem uma bateria capaz de estocar energia dessas fontes (eólica e solar)", disse à Reuters o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim.
Para ele, considerando as tecnologias conhecidas, as usinas termelétricas a gás natural seriam a primeira opção para substituir as hidrelétricas como espinha dorsal da expansão da geração, mas isso depende de reservas como as da camada pré-sal ou mesmo as de gás não convencional confirmarem seu potencial.

"Aparentemente há muito gás no pré-sal, mas ainda é uma incógnita qual o volume desse gás, qual o preço a que vai chegar e o tempo de duração de uso que teremos dele. Se tiver muito gás abundante e barato, o gás é a fonte prioritária para substuituir a hidrelétrica de reservatório", disse.

As usinas a gás natural já estão entre as prioridades de aumento das fontes termelétricas no plano de expansão em vigor no país, lembra Altino Ventura. O gás natural explorado no Brasil tem a preferência dos planejadores em relação a outros combustíveis, como carvão mineral e óleo combustível ou diesel, por custar e poluir menos.

Segundo Ventura, cerca de 81 por cento da expansão da oferta de energia no Brasil está baseada em hidrelétricas, eólicas e usinas a biomassa de cana-de-açúcar nos próximos 10 anos. A intenção é que cerca de outros 15 por cento da expansão sejam feitos com gás natural.

O planejamento mais sistemático e de longo prazo para os investimentos em energia é uma das principais características do chamado "Novo Modelo" do setor elétrico brasileiro. O modelo foi implantado pela presidente Dilma Rousseff quando era ministra de Minas e Energia e em 2014 completa uma década.

NUCLEAR COMO ALTERNATIVA

Se o gás natural não se mostrar viável, Tolmasquim acredita que a energia nuclear passará a ser a principal opção para o país. "O Brasil tem a sexta reserva do mundo de urânio, domina o enriquecimento de urânio. É uma tecnologia para a qual não se pode fechar a porta. Pode ser necessária no futuro", disse ele.

Menos poluente do ponto de vista da emissão de gases, a energia nuclear traz outras polêmicas, como a destinação a ser dada aos resíduos radioativos e o temor de acidentes, que aumentou em todo o mundo depois do desastre ocorrido na central de Fukushima, no Japão, em 2011.

O desastre no Japão, inclusive, fez o governo congelar o plano de construir mais quatro usinas nucleares, além da central de Angra 3, cuja obra ainda está em andamento. Para o coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ), Nivalde de Castro, novas usinas nucleares deveriam começar a entrar no planejamento de longo prazo.

"A nuclear é a forma mais firme de todas as termelétricas. Do ponto de vista da segurança do suprimento, a nuclear já deveria entrar no Plano Decenal de 2015 a 2025", disse Castro.

Ventura diz que a necessidade na energia nuclear no Brasil aparece no longo prazo, de forma que a inclusão de maior potencial deve ser pensada na matriz para entrada após 2025 ou 2030, a depender da evolução da expansão da matriz elétrica brasileira.

Segundo ele, atualmente, não há intenção do planejamento brasileiro de aumentar a participação da energia nuclear na matriz nos próximos dez anos, além da usina nuclear Angra 3.

A construção de usinas nucleares é demorada, com prazos tipicamente superiores a 8 anos e a construção das usinas de nova geração na China e nos Estados Unidos deve ser monitorada, diz Luiz Augusto Barroso, da PSR. "A agência regulatória dos EUA desenvolveu novos procedimentos de licenciamento prévio que poderão contribuir para reduções dos prazos de construção."

EXECUÇÃO DE PLANOS E SEGURANÇA DA MATRIZ

O governo federal descarta problema estrutural na matriz, mas considera maior entrada de projetos térmicos. Tolmasquim já afirmou que, dos 38 mil megawatts (MW) novos que devem ser contratados em leilões até 2018, cerca de 7,5 mil MW devem vir de usinas termelétricas movidas a gás natural ou carvão.

A urgência da inclusão de térmicas na matriz ocorre porque além do forte número de usinas eólicas que está entrando no conjunto elétrico do país, as hidrelétricas que já estão sendo viabilizadas atualmente --incluindo as duas usinas do rio Madeira e Belo Monte, no rio Xingu-- não têm reservatórios de acumulação de água.

Assim, as térmicas são como baterias para o sistema, sendo rapidamente acionadas em momentos em que as usinas eólicas e as hidrelétricas sem reservatórios, por exemplo, não estejam gerando o suficiente para atender a demanda do país.

"Usinas sem reservatórios são análogas, parecidas, aos parques eólicos", disse o ex-diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Agência Nacional de Águas (ANA) Jerson Kelman, explicando que a diminuição da capacidade de regularização do sistema hidrelétrico faz com que o país precise ter mais usinas com capacidade de gerar energia na base, sem interrupções.

A maior proporção de térmicas na matriz para compensar a ausência de reservatórios de regularização de hidrelétricas, segundo Kelman, tende a acontecer naturalmente, com o sistema elétrico do país se aproximando da dinâmica europeia.

Kelman acrescenta que deve haver uma discussão transparente no Congresso Nacional sobre qual a matriz elétrica ideal que o Brasil deve ter. Isso evitaria a forte oposição que atrasa empreendimentos e a execução de projetos planejados seria um compromisso de todos os órgãos envolvidos. "O que nós temos que sair é da situação atual em que nada pode", disse.

Atrasos para execução de projetos diante da oposição de grupos da sociedade e demora para liberação de licenças por órgão ambientais são apontados como algumas das principais dificuldades para que a expansão elétrica do país seja implantada dentro dos cronogramas planejados.

A proposta de Kelman de discutir no Congresso a matriz é defendida também pelos responsáveis pela área de energia na campanha do pré-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos.

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