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A futurologia, como se sabe, é uma atividade divertida, mas ingrata. Afinal, como prever (seja lá o que for) se os fatos obedecem a uma equação manhosa, na qual o imponderável é fator de peso preponderante? Vide o caso da produção de energia. Desde o primeiro choque de petróleo, nos anos 70, a humanidade quebra a cabeça para descobrir novas fontes— economicamente viáveis, observe-se —, que façam o mundo ingressar de forma plena em uma era pós-carbono. Passadas quatro décadas, porém, deu-se o inesperado. O carvão, um velho malfeitor do meio ambiente, retornou à cena. Ele avança tanto na Ásia como na Europa.

A lógica da produção de energia no mundo, aliás, virou de pernas para o ar com o advento do gás de xisto (o shale gas) nos Estados Unidos. Entre americanos, ele substitui em larga escala o carvão, cujo excedente é vendido para países asiáticos e europeus a preços módicos. A exportação de carvão americano para a Europa, por exemplo, cresceu 23%, atingindo 66,4 milhões de toneladas em 2012.

Há uma ironia aguda nessa narrativa. “O mundo está trocando um combustível fóssil, que é o petróleo, por dois combustíveis fósseis, o gás de xisto e o carvão mineral”, diz o cientista Evaristo de Miranda, doutor em ecologia e coordenador do grupo de Inteligência Estratégica Territorial da Embrapa. Miranda acompanha o renascimento do carvão e reuniu os números expostos neste texto. Ele observa que, nos 27 países da União Europeia (UE), a geração de energia a partir dessa fonte ultrapassou o uso do gás e atingiu o seu maior nível em 17 anos.

As termoelétricas europeias a carvão, acrescenta o pesquisador, aumentaram seus lucros. E a RWE, a maior geradora da Alemanha, obtém 62% de sua produção do carvão mineral e incrementou a produção em 16% no ano passado. Na Ásia, além da China, o Japão também substituiu a energia atômica pelo carvão, depois do desastre de Fukushima. Em contrapartida, empresas movidas a gás, como a norueguesa Statkraft, a alemã E-ON, a checa CEZ e a britânica SSE, fecharam usinas.

Esse salto do carvão (principalmente, em dobradinha com o xisto) não é o único indício de uma guinada na matriz energética mundial. Há mais: a descoberta de novos depósitos de petróleo (pré-sal, por exemplo), o emprego de tecnologias novas ou rejuvenescidas para a extração de produtos de origem fóssil (fracking no shale gas), além da incrível derrocada da imagem das hidrelétricas associadas a grandes reservatórios. Tudo isso mostra a real distância que estamos da sonhada hegemonia das renováveis.

Não será em breve, portanto, que o mundo vai virar a página da era hidrocarbonetos. Ao contrário, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Sendo assim, o que fazer agora? Que tipo de estratégia os líderes devem adotar? Apertar o botão do pragmatismo é algo sensato a fazer. Hoje, é fundamental estimular o desenvolvimento de tecnologias que atenuem os danos provocados pelos combustíveis fósseis. Essa é uma tarefa tão (ou mais) importante do que a de cultivar as renováveis.

O mundo tem de reconhecer que a alternativa ao petróleo, por um longo período, ainda será o petróleo e, quem sabe, o carvão, o xisto. Então, que os fósseis tenham um uso e um legado menos desastrosos para as pessoas e para o meio ambiente. Tal tema foi objeto de uma longa reportagem produzida, em junho, por Época Negócios. Por isso mesmo, os projetos de captura de carbono e eficiência energética não devem ser vistos como periféricos. Eles têm um papel bem mais central do que o estimado até agora no debate de ambientalistas e nas estratégias das empresas.

Antes de concluir, uma observação: o petróleo, em si, está longe de ser um vilão. Representa uma das matérias-primas mais fantásticas à disposição da humanidade. Seu uso se aplica a quase tudo que nos cerca. É um erro vê-lo sob outro ângulo. O equívoco, na verdade, é empregá-lo de forma irresponsável. O erro, por exemplo, é desperdiçá-lo em motores ineficientes e tecnologicamente jurássicos como os que movem os carros na atualidade. O petróleo é uma riqueza. Logo, deve também ser preservado. Será que um dia poderemos dizer o mesmo do carvão?

Revista Época - 13/11/2013

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A futurologia, como se sabe, é uma atividade divertida, mas ingrata. Afinal, como prever (seja lá o que for) se os fatos obedecem a uma equação manhosa, na qual o imponderável é fator de peso preponderante? Vide o caso da produção de energia. Desde o primeiro choque de petróleo, nos anos 70, a humanidade quebra a cabeça para descobrir novas fontes— economicamente viáveis, observe-se —, que façam o mundo ingressar de forma plena em uma era pós-carbono. Passadas quatro décadas, porém, deu-se o inesperado. O carvão, um velho malfeitor do meio ambiente, retornou à cena. Ele avança tanto na Ásia como na Europa.

A lógica da produção de energia no mundo, aliás, virou de pernas para o ar com o advento do gás de xisto (o shale gas) nos Estados Unidos. Entre americanos, ele substitui em larga escala o carvão, cujo excedente é vendido para países asiáticos e europeus a preços módicos. A exportação de carvão americano para a Europa, por exemplo, cresceu 23%, atingindo 66,4 milhões de toneladas em 2012.

Há uma ironia aguda nessa narrativa. “O mundo está trocando um combustível fóssil, que é o petróleo, por dois combustíveis fósseis, o gás de xisto e o carvão mineral”, diz o cientista Evaristo de Miranda, doutor em ecologia e coordenador do grupo de Inteligência Estratégica Territorial da Embrapa. Miranda acompanha o renascimento do carvão e reuniu os números expostos neste texto. Ele observa que, nos 27 países da União Europeia (UE), a geração de energia a partir dessa fonte ultrapassou o uso do gás e atingiu o seu maior nível em 17 anos.

As termoelétricas europeias a carvão, acrescenta o pesquisador, aumentaram seus lucros. E a RWE, a maior geradora da Alemanha, obtém 62% de sua produção do carvão mineral e incrementou a produção em 16% no ano passado. Na Ásia, além da China, o Japão também substituiu a energia atômica pelo carvão, depois do desastre de Fukushima. Em contrapartida, empresas movidas a gás, como a norueguesa Statkraft, a alemã E-ON, a checa CEZ e a britânica SSE, fecharam usinas.

Esse salto do carvão (principalmente, em dobradinha com o xisto) não é o único indício de uma guinada na matriz energética mundial. Há mais: a descoberta de novos depósitos de petróleo (pré-sal, por exemplo), o emprego de tecnologias novas ou rejuvenescidas para a extração de produtos de origem fóssil (fracking no shale gas), além da incrível derrocada da imagem das hidrelétricas associadas a grandes reservatórios. Tudo isso mostra a real distância que estamos da sonhada hegemonia das renováveis.

Não será em breve, portanto, que o mundo vai virar a página da era hidrocarbonetos. Ao contrário, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Sendo assim, o que fazer agora? Que tipo de estratégia os líderes devem adotar? Apertar o botão do pragmatismo é algo sensato a fazer. Hoje, é fundamental estimular o desenvolvimento de tecnologias que atenuem os danos provocados pelos combustíveis fósseis. Essa é uma tarefa tão (ou mais) importante do que a de cultivar as renováveis.

O mundo tem de reconhecer que a alternativa ao petróleo, por um longo período, ainda será o petróleo e, quem sabe, o carvão, o xisto. Então, que os fósseis tenham um uso e um legado menos desastrosos para as pessoas e para o meio ambiente. Tal tema foi objeto de uma longa reportagem produzida, em junho, por Época Negócios. Por isso mesmo, os projetos de captura de carbono e eficiência energética não devem ser vistos como periféricos. Eles têm um papel bem mais central do que o estimado até agora no debate de ambientalistas e nas estratégias das empresas.

Antes de concluir, uma observação: o petróleo, em si, está longe de ser um vilão. Representa uma das matérias-primas mais fantásticas à disposição da humanidade. Seu uso se aplica a quase tudo que nos cerca. É um erro vê-lo sob outro ângulo. O equívoco, na verdade, é empregá-lo de forma irresponsável. O erro, por exemplo, é desperdiçá-lo em motores ineficientes e tecnologicamente jurássicos como os que movem os carros na atualidade. O petróleo é uma riqueza. Logo, deve também ser preservado. Será que um dia poderemos dizer o mesmo do carvão?

Revista Época - 13/11/2013

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A incrível reviravolta do carvão

13/11/2013

CARLOS RYDLEWSKI

A futurologia, como se sabe, é uma atividade divertida, mas ingrata. Afinal, como prever (seja lá o que for) se os fatos obedecem a uma equação manhosa, na qual o imponderável é fator de peso preponderante? Vide o caso da produção de energia. Desde o primeiro choque de petróleo, nos anos 70, a humanidade quebra a cabeça para descobrir novas fontes— economicamente viáveis, observe-se —, que façam o mundo ingressar de forma plena em uma era pós-carbono. Passadas quatro décadas, porém, deu-se o inesperado. O carvão, um velho malfeitor do meio ambiente, retornou à cena. Ele avança tanto na Ásia como na Europa.

A lógica da produção de energia no mundo, aliás, virou de pernas para o ar com o advento do gás de xisto (o shale gas) nos Estados Unidos. Entre americanos, ele substitui em larga escala o carvão, cujo excedente é vendido para países asiáticos e europeus a preços módicos. A exportação de carvão americano para a Europa, por exemplo, cresceu 23%, atingindo 66,4 milhões de toneladas em 2012.

Há uma ironia aguda nessa narrativa. “O mundo está trocando um combustível fóssil, que é o petróleo, por dois combustíveis fósseis, o gás de xisto e o carvão mineral”, diz o cientista Evaristo de Miranda, doutor em ecologia e coordenador do grupo de Inteligência Estratégica Territorial da Embrapa. Miranda acompanha o renascimento do carvão e reuniu os números expostos neste texto. Ele observa que, nos 27 países da União Europeia (UE), a geração de energia a partir dessa fonte ultrapassou o uso do gás e atingiu o seu maior nível em 17 anos.

As termoelétricas europeias a carvão, acrescenta o pesquisador, aumentaram seus lucros. E a RWE, a maior geradora da Alemanha, obtém 62% de sua produção do carvão mineral e incrementou a produção em 16% no ano passado. Na Ásia, além da China, o Japão também substituiu a energia atômica pelo carvão, depois do desastre de Fukushima. Em contrapartida, empresas movidas a gás, como a norueguesa Statkraft, a alemã E-ON, a checa CEZ e a britânica SSE, fecharam usinas.

Esse salto do carvão (principalmente, em dobradinha com o xisto) não é o único indício de uma guinada na matriz energética mundial. Há mais: a descoberta de novos depósitos de petróleo (pré-sal, por exemplo), o emprego de tecnologias novas ou rejuvenescidas para a extração de produtos de origem fóssil (fracking no shale gas), além da incrível derrocada da imagem das hidrelétricas associadas a grandes reservatórios. Tudo isso mostra a real distância que estamos da sonhada hegemonia das renováveis.

Não será em breve, portanto, que o mundo vai virar a página da era hidrocarbonetos. Ao contrário, essa hipótese soa cada vez mais improvável. Sendo assim, o que fazer agora? Que tipo de estratégia os líderes devem adotar? Apertar o botão do pragmatismo é algo sensato a fazer. Hoje, é fundamental estimular o desenvolvimento de tecnologias que atenuem os danos provocados pelos combustíveis fósseis. Essa é uma tarefa tão (ou mais) importante do que a de cultivar as renováveis.

O mundo tem de reconhecer que a alternativa ao petróleo, por um longo período, ainda será o petróleo e, quem sabe, o carvão, o xisto. Então, que os fósseis tenham um uso e um legado menos desastrosos para as pessoas e para o meio ambiente. Tal tema foi objeto de uma longa reportagem produzida, em junho, por Época Negócios. Por isso mesmo, os projetos de captura de carbono e eficiência energética não devem ser vistos como periféricos. Eles têm um papel bem mais central do que o estimado até agora no debate de ambientalistas e nas estratégias das empresas.

Antes de concluir, uma observação: o petróleo, em si, está longe de ser um vilão. Representa uma das matérias-primas mais fantásticas à disposição da humanidade. Seu uso se aplica a quase tudo que nos cerca. É um erro vê-lo sob outro ângulo. O equívoco, na verdade, é empregá-lo de forma irresponsável. O erro, por exemplo, é desperdiçá-lo em motores ineficientes e tecnologicamente jurássicos como os que movem os carros na atualidade. O petróleo é uma riqueza. Logo, deve também ser preservado. Será que um dia poderemos dizer o mesmo do carvão?

Revista Época - 13/11/2013

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